O Incrível Congresso de Astrobiologia
Cristina Lasaitis

Era uma jovem fêmea Homo sapiens chamada Lima C..

Lima, no caso, é um tipo de fruto terrestre azedo, rico em ácido ascórbico, também chamado pelos terráqueos de vitamina C. Não se sabe por que os humanos têm o costume de dar aos exemplares do sexo feminino nomes de plantas, como Rosa, Violeta, Margarida; mas nunca o nome dos compostos químicos responsáveis pelo perfume ou sabor dos mesmos, como Glicose ou Etanoato de Etila. Sabe-se que Lima C., embora seja um nome refrescante, não é lá muito comum para os Homo sapiens, mas era assim que a humana em questão assinava os artigos científicos que publicava no seu mundo de origem, o que nos leva a deduzir que é deste modo que ela preferia ser chamada.

Lima C. era bióloga. Isso significa que ela passara quatro anos de sua vida estudando o que é a vida, para passar o restante do tempo tentando entender o que tinha estudado. Ela nunca conseguiu compreender a vida de fato, pois a ciência humana ainda se encontra em um estágio demasiadamente primitivo, mas tudo indica que ao menos no domínio das ciências biológicas Lima C. era menos ignorante do que o restante da sua espécie. Ela se formara pela Universidade de São Paulo, que era um centro de estudos científicos situado em uma das maiores manchas demográficas do planeta Uvs-Plagh! – a que os seres humanos costumam chamar de Terra, – e se orgulhava muito daquilo.

O planeta Uvs-Plagh! é o sexto na órbita próxima da estrela Angh-Uh!, embora seus habitantes acreditem que seja o terceiro, pois a sua tecnologia incipiente ainda não os permite identificar astros pára-brânicos. O planeta é o único no seu sistema a apresentar traços de vida pluricelular e os seres que ali habitam estão em evolução há aproximadamente um bilhão de anos uvs-plagh!ianos. Em um período evolutivo desta magnitude, é previsível o surgimento de uma espécie como o Homo sapiens, que divergiu do entroncamento evolutivo dos primatas como os únicos seres do planeta capazes de provocar suicídio coletivo autoconsciente, o que configura o nível –8 na escala Tofh-Aah! de inteligência.

Por quinze milênios nos mantivemos em observação contínua nas fronteiras pára-brânicas de Uvs-Plagh!, onde temos estudado a evolução dos Homo sapiens atentamente, embora esta nos parecesse uma das espécies semi-inteligentes mais desinteressantes do universo. Por todo esse tempo nunca havíamos tentado contato com os humanos, até porque eles ainda são muito primitivos para compreender o significado da diplomacia, e poderiam entender a nossa intromissão como entendem uns aos outros: como uma ameaça.

A nossa política para com a humanidade terrena mudou quando nos deparamos com o exemplar Lima C.. E a razão para que este único espécime nos tenha despertado a atenção dentre dez bilhões de seres humanos foi um atributo a que ela mesma chama de intuição: a sua capacidade de fitar o céu noturno e desconfiar da nossa presença, passando a desenvolver um interesse notável pela vida além de Uvs-Plagh!.

Lima C. se dedicava à astrobiologia.

No seu planeta natal a astrobiologia ainda é matéria de ficção. Uma ciência calcada em especulação pura, uma vez que os Homo sapiens jamais encontraram indícios de vida em outras regiões do universo. Em seu pequeno habitat no Instituto de Biociências, Lima C. passava seus dias lendo obras de ficção científica e observando a natureza enquanto teorizava sobre formas alternativas de organização molecular capazes de gerar a vida em ecossistemas não-terrestres.

Nós analisamos suas publicações e afirmamos: seus chutes teóricos passavam longe da realidade, mas o conjunto da obra era surpreendente por nos revelar que a capacidade imaginativa do Homo sapiens é muito maior do que a sua inteligência.

Apesar do insucesso teórico e da inutilidade que a sua carreira insinuava aos olhos dos outros humanos, nossas antenas telepáticas sinalizavam que o interesse de Lima C. na vida extraterrena era legítimo. E levando em consideração o sentimento sincero que a cientista humana nos devotava, decidimos que estava na hora de fazer contato com a sua espécie.

Foi assim que um convite de honra para o MCXI Congresso de Astrobiologia chegou à caixa de e-mails de Lima C.. De início, ela ficou estupefata pelos 1.110 congressos de astrobiologia dos quais jamais ouvira falar. Por outro lado, sentiu-se orgulhosa por ser cotada como uma presença indispensável, sinal de que era reconhecida como uma das maiores autoridades do seu mundo no assunto, e para não frustrar o bom juízo dos organizadores, apressou-se em preparar o seu melhor artigo para apresentar no congresso.

O congresso aconteceria no auditório de um prédio com formato de disco voador, a que os humanos daquela localidade chamavam de Anhembi.

Discos voadores são objetos aéreos fictícios, que os humanos acreditam se tratar de meios de transporte de civilizações extraterrestres. A mente humana não consegue se dissociar facilmente das dimensões espaço-tempo, então pensam que nos transportamos linearmente sobre a brana, como eles mesmos o fazem.

Mas o Anhembi não era um disco voador, nem mesmo uma construção móvel, e no dia e hora marcados, Lima C. apareceu com o seu convite de honra impresso e o seu pôster debaixo do braço, encontrando na entrada do prédio um luminoso com a seguinte saudação:

BEM VINDA, DRA. LIMA C., AO

MCXI CONGRESSO INTERGALÁCTICO DE ASTROBIOLOGIA!

Parada à porta, boquiaberta, só então Lima C. percebeu que ela era a única pessoa inscrita no congresso, se não é que o congresso fora preparado exclusivamente para ela.

– Mas eu avisei que o meu nome é Cláudia Lima!

E os dizeres do luminoso plasmaram-se em novas letras, que aos olhos da humana pareciam gelatina de néon:

DIRIJA-SE AO AUDITÓRIO, POR GENTILEZA,

OS ORGANIZADORES A AGUARDAM.

Surpreendida, foi o que Lima C. fez.

Ela caminhou ao longo do saguão vazio desconfiada de que fora vítima de uma galhofa humana. Por curiosidade, os humanos são muito dados a brincadeiras de mau gosto, bem como a vinganças; Lima C. era humana e sabia disso, tanto que gastou cinco milhões de potenciais sinápticos planejando vingar-se do autor da brincadeira, caso o pegasse.

Ela não percebeu e não tinha como notar os conversores pára-brânicos que havíamos instalado ao longo do saguão, nem mesmo desconfiou das distâncias que transpunha a cada passo que dava. De forma que, quando alcançou o auditório, havia cruzado três branas, indo parar a três universos de distância de casa.

Nós estávamos lá para recebê-la.

E ao nos enxergar através da névoa, vendo-nos nadar em bolhas de metano com nossas antenas telepáticas refulgindo amigavelmente através dos gases, ela parou e nos observou com os olhos apertados. Retirou os óculos, esfregou-os na blusa, recolocou-os no rosto, e só então retesou com as órbitas saltadas e os poros eletrizados em alta condutância, encarando-nos feito uma bactéria à sombra de um frasco de antibiótico…

– Aaaaaaaahhh!! – Saudou-nos com espanto.

E depois de se aterrorizar conosco, Lima C. virou-se para procurar a porta do auditório e percebeu que não havia mais auditório, nem porta, nem planeta Uvs-Plagh!

Tentamos acalmá-la:

– Ughws-vs-Uugh! Plagh-grvs-Ih-Blagh! Igh! Tp-tp-Aaah!

Mas o pico galvânico emanado por sua pele denunciou que nossas palavras não surtiram o efeito desejado, então foi necessário que nos comunicássemos com ela por meio de sua linguagem interna.

E foi assim que Lima C. começou a ouvir seus pensamentos como se eles não pertencessem a ela, surgindo no fluxo de suas idéias como uma vaga cascata sináptica de estimulações aleatórias. Assim, fizemo-la entender quem éramos e para que a trouxemos ali.

A terrestre se acalmou.

– O Congresso? – Balbuciou em seu linguajar gutural. – Eu vou participar do Congresso? Com vocês…?!

Sim, iria participar do maior congresso de astrobiologia de todos os universos! Ela tinha compreendido, seu raciocínio era lento mas ela possuía um nível crítico de inteligência para entender. E sorriu maravilhada.

Prendemos nossa amostra de Homo sapiens dentro de uma bolha de oxigênio e a levamos para o campo unificado de conferências inter-brânicas, junto com o restante dos espécimes por nós recolhidos no universo Pugh-Oh!.

As inteligências nível 1 de todas as branas conhecidas do pára-continuum infinito se reclinaram curiosas sobre o minúsculo verme humano. Não que ele fosse mais interessante ou inteligente do que as outras amostras coletadas, mas descobriu-se que sua mente tinha uma profundidade emocional inigualável a qualquer ser que habitasse o abismo da existência entre o Tudo e o Nada.

Os humanos são seres de vida curta, mas a habilidade que a sua mente possui para imprimir emoções aos ínfimos ciclos de existência é capaz de perpetuar suas memórias ao infinito, abstraindo-os da dimensão temporal para mergulhá-los em uma efêmera eternidade psíquica.

Uma capacidade única!

E nós, os habitantes das inter-branas, muito nos empenhamos em entender a mente emocional do frágil espécime que tínhamos à frente. Discutimos. Debatemos. Analisamos… E enquanto o congresso seguia, a fêmea Homo sapiens emitia trinados agudos, reflexos galvânicos e tempestades sinápticas que irrompiam da membrana da bolha para estremecer nossas antenas telepáticas. Tempos depois, ela se calou e deixou de reagir, foi quando percebemos que devia estar sofrendo. E em estudar o seu sofrimento, lembramo-nos de que a agenda do MCXI Congresso de Astrobiologia se cumpriria em seis ciclos galácticos, que era um período muito maior do que o tempo de uma vida humana.

Seria necessário preservá-la…

* * *

E então Cláudia Lima abriu os olhos e saudou a rachadura no teto do seu quarto. Ela nunca tinha ficado tão contente em ver a rachadura ali, era um sinal reconfortante de que estava em casa. Alívio inefável acordar após um longo e bizarro pesadelo em que se viu levada como amostra para um congresso de astrobiologia de seres de outra dimensão.

Não queria mais pensar no sonho. Não queria mais saber de astrobiologia. Queria estar em casa e em casa ficar.

Sentou-se na cama dando vazão a um bocejo prolongado após um cochilo despreocupado em uma tarde de sábado. Os raios vermelhos incidindo nas paredes do quarto, refulgindo sobre os pôsteres dos congressos passados. Na janela, a cena deliciosa da cidade imersa na névoa alaranjada da fuligem ao pôr do Sol.

Um pôr do Sol que perduraria pela eternidade. Uma memória ativada e reativada e reativada e reativada por contínuos estímulos elétricos na mesma área do giro denteado do hipocampo, enquanto o corpo comatoso se conservava em uma gota de plasma a tremular por muitos ciclos no Museu de Astrobiologia do 3º Universo à direita do abismo…

12 Responses to “O Incrível Congresso de Astrobiologia
Cristina Lasaitis”

  1. Oras, oras, serí¡ que finalmente teremos um nome forte em fc no Brasil?

    E ainda uma jovem dama?

    Viva!!!

  2. Que conto imaginativo e viajante, hein, Cris! =)
    Coitada da guria que acabou sendo uma peí§a de museu…
    Gostei! ;)
    Bjos!

  3. Definitivamente, quero ler um livro seu.

  4. Cris, belíssimo conto… inteligente e bem escrito… mas gostaria de saber de onde saem nomes como Uvs-Plagh!… : )

  5. A Cris mais uma vez mistura inteligíªncia, ironia e sutilezas no jeitinho todo especial dela. Essa menina jí¡ é uma grande escritora sem díºvida, e ve-la desabrochar assim diante dos meus olhos é uma grande felcidade. Valeu Cris !!!

  6. PQP guria… :)
    Se vocíª ní£o for um grande nome da FC nacional dentro de uns 10 anos no mí¡ximo, é porque desistiu de escrever!

    E olha, ní£o criticar ní£o quer dizer ser condescendente… a culpa é sua se eu ní£o encontro o que criticar, ok?

    :*

  7. Sempre se superando ní£o é?
    Gostei!

  8. Gostei do conto, Cris. Mas como quando leio um conto para aní¡lise e para meu aprendizado eu procuro ver o que eu faria diferente ou faria igual, farei algumas observaí§íµes que espero que ní£o a incomodem.
    Acho que o formato de relatí³rio deixa o conto meio pesado, acrescenta formalidade demais. Eu optaria por deixí¡-lo na terceira pessoa onipotente. Ou seja, com alguém que víª tudo descrevendo para o leitor o que estí¡ acontecendo, inclusive os pensamentos da protagonista. Um problema num relatí³rio feito por um alienígena para seu prí³prio povo é justificar o fato dele usar nossa linguagem terrí¡quea para se expressar, inclusive com o uso de palavras figurativas na nossa linguagem (por exemplo, “seus chutes teí³ricos”). Em alguns pontos parece que é um alienígena narrando a histí³ria, mas hí¡ formalidade demais, por isso ficou parecendo um relatí³rio para mim.
    Ní£o fiquei convencido de que a personagem Clí¡udia Lima tivesse tanta importí¢ncia que chamasse a atení§í£o dos alienígenas. Faltou algo a mais na construí§í£o dessa personagem, faltou mostrar mais dela para o leitor e de alguns pensamentos dela. E como o final dela é trí¡gico, um envolvimento maior do leitor com a personagem aumentaria o impacto final.
    Num ponto do conto-relatí³rio comenta-se que a Terra é o íºnico planeta do sistema a apresentar vida pluricelular. Eu optaria por acrescentar algumas protobactérias ou algo parecido em algum satélite dos planetas gasosos. Talvez ní£o existam, mas acho que dí¡ um toque legal no conto saber que os alienígenas sabem dessas outras vidas, mas ní£o ní³s.
    Um abraí§o.

  9. Puxa vida, por que serí¡ que quando leio textos como esse (ou assisto a filmes com esse tema) sempre me identifico com os NíƒO-humanos?
    Bom, deixa pra lí¡. O importante é que os textos da Cris continuam absolutely fabulous!
    Continuo votando pelo romance.
    Beijocas

  10. Christie,

    Mais um conto criativo, cuidadoso e com a fina ironia que jí¡ se tornou sua marca. Creio que jí¡ esgotei minhas melhores críticas na primeira vez em que o li, mas… Clap, clap e mais clap.

    E também estou no coro que aguarda o romance, desde, é claro, que isso esteja nos seus planos.

    Beijí£o.

  11. Chris,

    Este é o segundo conto que leio seu e estou realmente impressionada. Esta sua história foi notável, tanto na idéia, quanto na execução e realmente adorei o final.
    Parabéns.
    Rita

  12. Belo e muito criativo conto. O título é uma brincadeira com o Incrível Congresso de Futurologia, do grande Stanislaw Lem, certo? O final é surpreendente e até meio cruel. No entanto, alguns trechos no meio são um tanto frenéticos demais, possuem excesso de adjetivos e termos determinantes.

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