OS SONS DA MADRUGADA
Luciana Muniz

O ultimo gole passou rasgando por sua garganta. Os termômetros registravam oito graus, mas aquela bebida fez o frio que sentia gelar a alma, desaparecer por alguns momentos. Sentiu a tonteira habitual dos que bebem sem ter nada no estômago para aplacar os efeitos do álcool. Não demorou muito em sentir fome, mas sabia que um jantar digno era coisa dos bem aventurados, não era para ele. Encolheu-se ainda mais nas sombras, já sentindo o vento gélido da noite, a passar por sua face e desalinhar seus cabelos.

Na viela suja em que se encontrava, o cheiro era insuportável! Mas como era mal iluminada, proporcionava um refúgio seguro para os que não tem um teto para chamar de seu.

Desde a noite em que um maldito marginal descobriu o seu refúgio e lhe aterrorizou a madrugada inteira, passava as noites sobressaltado. Todos os sons que se apresentavam aos seus ouvidos eram devidamente analisados.

Mas de um ele raramente se esquecia: um click.

Sim, um click vindo do revólver onde a bala não encontrou a saída. Em uma destas madrugadas, o tal marginal parecia fugir da polícia quando encontrou abrigo na viela mal iluminada. Tropeçou em uma garrafa de cerveja barata, fazendo um grande barulho e quase sendo pego por seus perseguidores. Soltou um palavrão e no mesmo instante em que sentiu os seus olhos se acostumando com a penumbra, percebeu que não estava sozinho e sacou a arma, procurando o candidato a alvo.

Encostou o cano da arma em sua fronte, falando com uma malícia sádica:

– Vamos brincar de roleta russa?

Não teve tempo de retrucar, de correr para longe ou de gritar, o pilantra era ágil e não demorou em perceber que ele estava desarmado e estava bastante indefeso. Tudo o que ele queria era se livrar daquele medo. Apesar da vida miserável que levava, não gostaria de terminar daquela forma.

Mudo, observou atentamente o processo de retirada das balas do tambor, exceto de uma, a que lhe torturaria madrugada adentro, podendo permanecer no tambor ou cruzar o seu crânio. Ele tinha uma chance em oito a cada rodada. Com um sorriso sarcástico, o infeliz apertou o gatilho e… click!

Até hoje não consegue descrever o medo que sentiu segundos antes de ouvir o estalinho que decretava que ele ainda viveria mais algum tempo nas ruas de São Paulo. Não sucumbiria nas mãos de um idiota viciado, que queria lhe demonstrar como o revólver que havia furtado valia duas ou três pedras.

Orgulhava-se de ter uma audição lapidada para antever um perigo ou um flagrante de alguma cena inusitada. E não era raro que o inusitado acontecesse.

As horas passavam e o movimento de pedestres daquela movimentada rua do centro ia cessando lentamente. Tudo foi ficando silencioso…

Já era início de mais uma longa madrugada, quando escutou passos ao longe. Os passos foram ficando cada vez mais altos e ritmados, até que pôde distinguir que eram passos femininos.

Não precisou espiar para saber que se tratava de uma das garotas da boate em frente, sempre coloridas em suas roupas mínimas, a vagar pelas calçadas em busca de um novo cliente. Ficou se perguntado como elas suportavam aquelas baixas temperaturas com os seus corpos a mostra.

Mal acabava de pensar nisso e já percebia os passos se distanciando rapidamente, parando por alguns instantes. Depois ouviu o som de uma porta de carro se fechando e em seguida pneus cantando.

Quase adormeceu novamente quando um outro som fez despertar a sua inquietude. Apurou-se no som e percebeu que se tratava de uma folha seca, que bailava pelos ares sendo conduzida pelo vento. A tal folha chamou a atenção de um gato malhado, que tentava conter o seu percurso errante. Somente quando o felino sentiu os pedacinhos da folha entre suas patinhas, sossegou.

E novamente o silêncio se fez presente, sendo cortado horas depois pelo estrondoso barulho de um trovão. Ele bem que havia sentido algo estranho, como um flash e logo deduziu que havia sido um relâmpago, precedendo os trovões.

Não demorou para que a chuva caísse sobre a cidade adormecida. Teve que providenciar um abrigo em uma das marquises, pois não estava em seus planos passar o dia seguinte com as roupas molhadas em pleno inverno.

Novamente o cansaço de uma vida de privações, aliado com o reconfortante som da chuva, o fez adormecer como uma criança no colo da mãe.

Uma hora havia se passado quando ouviu o som das águas escorrendo pelas bocas de lobo. A claridade de um novo dia trazia consigo os passos apressados dos transeuntes, que não mais lhe permitiriam ter um sono tranqüilo. Então resolveu tatear a parede em que estava escorado e voltou para a viela da madrugada anterior. Com um pouco de sorte as esmolas dadas a um velho pedinte seriam suficientes para um misto quente ou uma garrafa de pinga para o frio da noite.

Companhia?

Somente os sons proporcionados por suas insones madrugadas…

2 Responses to “OS SONS DA MADRUGADA
Luciana Muniz”

  1. Lu, este texto foi como um belo grafite onde as múltiplas imagens são os sons que suas palavras descrevem. Denso e real. Bom!

    Beijo!

    Harolds

  2. Lú, é uma pena que é o último, foi ótimo trabalhar com você.

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