SEXLESS HALLEN® – PARTE III
Cristina Lasaitis
Ato 7
Quando chegou em casa, a primeira coisa que ele fez foi despejar as fotos no computador. Desta vez Carlos não estava a fim de um porre para afogar as mágoas de fã incorrespondido, ele tinha muito a fazer. Estivera a três metros de distância dela, o mais próximo que pudera chegar. Houvera metralhado o botão de disparo da câmera durante toda a entrevista. Pegou cada detalhe, cada movimento, e com o seu olhar atento ele conseguiu flagrá-la em um instante de distração. Ao final da coletiva, Hallen parecera ansiosa, seus dedinhos compridos ficaram inquietos, brincando com as chaves da suíte. Naquele momento Carlos reconheceu o quanto valera a pena pagar uma pequena fortuna numa batedora de fotos de zoom potente e altíssima resolução. O número do apartamento estava estampado no chaveiro: um, um, um.
Carlos colocou o seu melhor terno, o anel de ouro que era do seu pai, encheu uma mala de viagem com a câmera fotográfica, um binóculo, uma garrafa de Martini e meia dúzia de peças de roupa. Tirou o carro da garagem, deu a partida e foi torrar o salário do mês com sua loucura.
Um sujeito engravatado irrompeu pelos portões do Renaissance com passadas de executivo.
– Oh, desculpe, não tenho reserva. Acabei de chegar de Frankfurt, o vôo atrasou, mas não há problema se as suítes estiverem lotadas, eu…
A recepcionista dispôs-se a procurar um apartamento à altura da pose do sujeito.
– Temos esta no oitavo andar…
– Será que você não teria uma no décimo primeiro?
A moça olhou com estranhamento.
– Desculpe, coisas de supersticioso… Eu vou fechar um grande negócio depois de amanhã e… – fez-se de constrangido e aproximou-se dela para falar em surdina: – Já ouviu falar em Cabala? O onze é o número do sucesso, é a representação da…
E o que um hotel de luxo não faz pelo bem-estar de um cliente excêntrico? No final das contas Carlos conseguiu o andar que queria. Um funcionário conduziu-o até uma suíte Stanford, ampla, aconchegante, luxuosa… Iria sair caro, com certeza! E a despesa começou com os cinqüenta reais de caixinha que se foram nas mãos do carregador de malas.
Mas a matemática foi generosa, ao rodar os calcanhares e apreciar a porta da suíte em frente, um sopro de excitação se apoderou dele. Naquela noite ele dormiria a poucos metros de sua obsessão. Em outras palavras, ele não dormiria! Ficaria dando voltas pelo quarto, espiando o corredor através da fresta da porta com os seus olhos de coruja esbugalhados noite adentro.
Ele cochilara ao raiar do dia. O barulho de passos no corredor o fez acordar num pulo. Hallen e Annika estalavam os sapatos no piso, estavam saindo. Saindo por sair, sem as malas, por sorte. Mas segui-las naquele momento não seria nada inteligente, não depois da bandeira que ele dera na coletiva de ontem. Carlos voltou amuado para a cama, mas não conseguiu mais pegar no sono. Não agüentou, tinha de sair! Vestiu-se e foi até o restaurante buscar o café da manhã que lhe era de direito. Comeu bem, consciente da fortuna que iria lhe custar cada migalhinha de croissant. Comeu sozinho, sem ver sinal da sua ninfa dos olhos verdes.
Voltou à suíte sem saber o que fazer. Continuou a dar voltas diante da porta. Tentou ver TV. Checou e-mail. Leu uma revista no banheiro. Abriu a garrafa de Martini para afogar a ansiedade. Chapado, dormiu outra vez. Acordou no meio da tarde, desceu da cama tonto e foi espiar o corredor. Quase caiu de costas…
A porta do 111 estava aberta!
O carrinho da camareira estava lá, mas a camareira propriamente dita, não. Carlos esticou o pescoço no corredor, nem sinal da mulher, nem sinal de ninguém. À frente, a suíte lhe sorria de portas escancaradas. Pobre Carlos, este era o seu dia de ir pra cadeia!
Ele buscou o estojo da câmera fotográfica e cruzou o corredor, rápido e silencioso. Não havia ninguém no apartamento. Esgueirou-se para baixo da cama e fingiu-se de morto. Logo depois, ouviu os passos da camareira. Ela adentrou o apartamento e os seus escarpins foram saudar o intruso escondido debaixo da cama. A mulher arrumou tudo e se foi. Em segurança, Carlos saiu do esconderijo, mal acreditando que estava onde estava. Deu um giro de 360 graus sentindo-se no paraíso. O perfume de Hallen impregnava o ambiente, tornava-a quase presente. Carlos pegou uma blusa e mergulhou o rosto no tecido fluido, embebedando-se do seu cheiro. Os pêlos do braço arrepiaram, as calças apertaram em torno dos quadris.
Por todos os lados, as roupas caras, os sapatos, as malas, os cosméticos e os seus inúmeros equipamentos. Uma grande quantidade de aparelhinhos, cabos, softwares, video-pods, e mais tudo o que a ElantraÓ fabricaria para Hallen desfilar por aí como um outdoor ambulante. Carlos tomou a câmera nas mãos e começou a fotografar. Havia bugiganga suficiente para matar de felicidade qualquer contrabandista. Rendido aos segredos de sua amada ausente, Carlos sentou-se na cama admirando aquele mundinho cravejado de silício e purpurina, imaginando como seria o castelinho de cristal da princesa van der Vert em Amsterdã.
Um intruso na intimidade de uma estrela é um homem às vésperas de ir pra cadeia. Mas isso não importava. Não lhe importava o resultado da atitude desmiolada, desde que ele tivesse o seu momento a sós com a tentação. Se ao menos ele conseguisse despistar a maldita empresária!
A mão buscou o celular.
– Alô? Charles?
– Tenho uma missão pra você, Pitéu. Este pode ser o nosso dia de sorte!
– Hein?
– Eu conheci a modelo certa para o catálogo de lançamento da coleção outono-inverno. Você precisa ligar para o assessor da agência e pedir um contato urgente com a Annika de Vries.
– O quê?! – Pitéu engasgou do outro lado. – Enlouqueceu, querido? Onde é que você tá?
– Pitéu, presta atenção! Elas estão indo embora amanhã, vão pra Nova York negociar a capa da Vogue. Eu preciso fotografá-la, cara, eu preciso! E você precisa promover a sua marca. Nós dois precisamos dela.
– Tá querendo me ver na sarjeta, Charles? Eu contratei você como fotógrafo, não como publicitário… Você andou bebendo?
– Parece loucura, mas é o tipo de loucura que muda uma vida, Pitéu, tente enxergar além! Ela está crescendo, está brilhando, vai chegar onde nenhuma modelo jamais esteve e vai levar às alturas quem estiver com ela. Você não quer ser um estilista anônimo pro resto da vida, não é? Amanhã você vai se arrepender da grande guinada que não deu na sua carreira. Você tem que tentar, ao menos pra dizer que tentou. Ela vai posar para a Vogue, depois o preço vai ser outro e o difícil vai ficar impossível.
– Você só está se esquecendo de um detalhe: se eu for à falência não vou ter uma grife pra promover. Onde você acha que eu vou arrumar esse dinheiro?
– Não necessariamente vai ser uma fortuna, você sabe negociar. Você sabe que você sabe!
– Sinto muito, Charles. Eu entendo que você está louco pra fotografar o chuchu, mas não é com ela. Eu quero alguém mais convencional, se é que você me entende.
Carlos suspirou.
– Só tentar, Pitéu, não custa nada. Confie em mim, tente entrar em contato com a Annika, diga que você quer propor negócio urgente. Ela está no Renaissance, peça pra ela conceder uma reuniãozinha no lobby do hotel. Vista-se como você sabe se vestir, use todo o seu francês, arrote caviar mesmo se estiver com bafo de sardinha, faça uma média, pague uns drinques pra ela e mande a conta pra mim…
– Eiei, pare aí! Você está querendo que eu seduza o canhão?
– Sedução profissional, Pitéu. Ela pode tornar a coisa acessível, é a mulher que vai fazer a sua carreira de estilista decolar.
– …
– Pitéu?
– Você me paga, Charles! Hoje é domingo, eu ainda não descansei da droga do desfile, eu ainda nem quero pensar naquela porcaria de catálogo, mas eu vou ver… Vou ver… Ligo pra você daqui a pouco.
E desligou. Carlos ouviu passos no corredor e esgueirou-se para debaixo da cama. Não era ninguém.
Uma hora depois, o celular tocou:
– Você não presta! – acusou Pitéu.
– O quê?
– Eu estou indo me aprontar. A madame disse para eu estar às sete horas no lobby do Renaissance.
Carlos cobriu a boca para abafar uma gargalhada triunfante.
– Você vai me agradecer! Não esqueça as fotos da coleção. Boa sorte!
– Au revoir!
Agora era só esperar o resultado. Em algum momento ela viria, talvez acompanhada, talvez sozinha, mas era certo que ele teria o seu momento a sós com ela. Carlos espreguiçou-se na cama king-size da princesa e deixou-se sonhar. Comeu o chocolate que a camareira deixara e abriu um champanhe que pegou no frigobar. Ficou bisbilhotando as malas dela e se deparou com uma coisinha rosa-choque cantando no criado-mudo. Era o computador-mascote-de-bolso de Hallen, ele não conteve a curiosidade de manusear o brinquedo, abriu a telinha luminosa e deliciou-se com a foto da dona posando ao fundo. O computador era uma obrinha de arte admirável, altamente tecnológica, animada por inteligência artificial e constituída de um sistema operacional inédito. Não dava para entender uma única palavra escrita na tela, mas Carlos se aventurou a apertar um botãozinho e…
– Goedenavond! Hoe is het, Halleen?
– É verdade que você fala português?
– Deseja alterar a função para "português do Brasil"?
– Por favor!
E num passe de mágica todo o sistema aportuguesou-se. Que maravilha! E eis que todos os segredos dela caíram na palma da sua mão; todas as fotos, as gravações, os contratos, a agenda, suas fotos, suas músicas, seus filmes… Carlos espreguiçou-se na cama e passou longos momentos entretido com a intimidade de Hallen.
– You took my Elantra Personal DeviceÒ , give it back to me!
A voz metálica retumbou pelas paredes, fazendo o intruso dar um salto da cama. Diante da porta, a beldade o encarava de olhos bem abertos e mãos na cintura. Ela chegara lisa como um gato, sem ruído, pegara-o de surpresa.
– Don’t you understand, your fool? – ela deu um passo adiante, engrossando a voz: – Give-it-back!
Hallen foi na direção do bisbilhoteiro exigindo o que era seu. Talvez estivesse furiosa, talvez estivesse possessa, contudo, o mais curioso era que ela não vinha enxotá-lo dali a gritos e arranhões, mas vinha como uma criança ciumenta resolvida a pegar o seu brinquedo de volta. Carlos desviou-se da investida, enfiou o computador na cueca e correu para a porta. Para fugir? Não! Para trancá-la e passar a chave.
– Vai ter que pedir em português, docinho!
E a batalha começou.
Hallen partiu pra cima e ele a agarrou pelos pulsos, remeteu-a contra a parede e tentou beijá-la à força. Nada que uma joelhada bem dada nos países baixos não resolvesse. Carlos desmontou-se no chão, sem fôlego, e Hallen correu para gastar suas lindas mãos esmurrando a porta. Apesar de a chave estar à sua disposição, ali na maçaneta, para o caso de querer fugir, Hallen contentou-se em berrar:
–
Me helpen! – esguelava. – Help! Shit! Help!
O homem se recuperou e agarrou-a por trás. Travou os braços peludos em torno de sua cintura e carregou-a para a cama, resistindo aos rasgos das unhas e ao vigor das esperneadas. Hallen caiu na cama com a elegância de um saco de batatas, o maluco arremeteu o peso do corpo sobre ela tentando segurá-la. Quando ele levou a mão até a braguilha, quase ganhou um olho furado. Continuaram lutando com empolgação redobrada.
–
Quer o quê, sua vadia? Você me enlouqueceu! Me perseguiu! Acha bonito enlouquecer os outros?
Tentar imobilizá-la na cama era como dar banho em um gato. Hallen se debatia contra o homem que tentava rasgar a sua roupa, mas ele se excitava mais e mais a cada tapa, a cada arranhão, a cada grito ardido. O sujeito gostava de apanhar! E ela se debatia com vontade, mas ia perdendo a batalha a cada segundo…
Hallen sempre soubera que corria o risco de encontrar com um maluco desses no próximo camarim. Estava prevenida, como deixou acontecer? Era o seu segredo e o de mais ninguém, mas não se podia colocar um segredo no seguro. Era a sua carreira, a sua sobrevivência, a sua primeira lei, a razão de tudo. Não tinha escolha!
Ecoando pelo corredor, os gritos denunciavam que dentro daquela suíte acontecia uma guerra. Não demorou para que a porta estremecesse sob as batidas dos seguranças:
–
Quem estiver aí pare agora o que está fazendo! Nós vamos entrar!
Não pararam.
Um tiro na fechadura resolveu o problema, a porta estourou com um pontapé e o segurança avançou com a arma em punho:
–
Pare aí!
O sujeito levantou as mãos, rendido. Estava sozinho. Nada mais que um pobre maluco descabelado, ofegante, desalinhado, com a braguilha aberta e o cano de fora, os olhos escancarados de susto. Ora essa, o terceiro estuprador de travesseiros em menos de um mês!
Trêmulo, o homem balbuciou:
– Ela… ela pulou…
Alguém viu um corpo caindo e gritou. Outros tiveram a impressão de que fosse um pequeno avião, ou até mesmo uma estrela cadente. Fosse o que fosse, caiu e se espatifou nos jardins, bem em frente ao bar do hotel. O estilista soltou um grito histérico e a empresária deixou o copo escapar dos dedos. Todos correram para ver o espetáculo.
Sangue? Não, faíscas para todos os lados! Coisinhas incandescentes fervilhando pelo gramado, braços e pernas pululando com espasmos elétricos, articulações enlouquecidas em curto-circuito. Passado o desespero mecânico, o colapso veio suave: o cintilar foi desvanecendo na noite, entregando às cinzas o que antes era encanto. Imortalizou-se o riso plástico da Monalisa. Apagou-se a flama digital dos olhos verdes. Ecoando pela noite, ouviu-se o soluçar de Annika de Vries ao recolher os pedaços de sua boneca destroçada.
Humm, o ato final foi interessante!
Gostei do conto e da forma como você o fechou.
é sempre difícil finalizar essas “novelas” (bem, eu acho!), mas o final fou bem legal.
confesso que eu esperava um alien, mas fiquei surpresa!
rs
Ro
Bom desfecho para um bom conto; sexy, fashion,sacana, cinematográfico. Com algum polimento adicional, serviria como roteiro para cinema ou televisão. A autora demonstra talento na criação de um personagem masculino verossímil e sua obsessão sexual. Demais personagens de apoio também foram bem construídos. Foi um das “visões” da Cristina mais extensas já apresentadas aqui e a autora não deixou a bola cair.
Parabéns.
Como já te disseram, taí um conto/novela altamente visualizável como roteiro pra telona ou telinha. Pena (pra nós) que as Youngs e os Mandrakes sejam o máximo que os canais pagos se permitam.
Finamente gostáveis são tuas sacadas e tuas expressões, por todas as camadas aceboladas de teu texto. Elas remetem a um espírito lúdico de nomeada, facilmente transmitido a quem te lê. Só esperamos que tua verve criativa chegue à digna exposição que tu mereces.
Um abração
Me pegou. Eu esperava. E também não esperava!
Você sabe.
Beijos assexuados.
Grande texto. Ficção científica com tintas pós-modernas,meio cyberpunk,mais crítica zombeteira à cultura às celebridades,do nosso mundo “moderno” foi/é uma idéia e tanto.Não quero posar de espertalhão, mas percebi no fim da parte um que a megamodelo era uma máquina. A frieza e a inumanidade que exalava ( méritos de suas descrições) indicavam isso. O ritmo da últim parte é empolgante, talvez porque há menos descrições, que encobrem um pouco da narração da parte I.