SEXLESS HALLEN® – PARTE II
Cristina Lasaitis
Ato 3
A foto tomou a tela.
– Droga, saí de olhos fechados! – Protestou Liana.
Diz-se que o primeiro detalhe que cada um repara em uma foto é o seu próprio rosto. Verdade. Carlos reparou em si, sua fealdade humilhada pela beleza do rosto sorridente ao seu lado. Mas havia algo além, um detalhe constrangedor: Carlos não olhara para a câmera, estivera vidrado em Hallen, sua fascinação escancarada no olhar com que ele a devorava. Liana bem percebeu:
– Hum… Parece que você está gamado nele!
Carlos enrubesceu por baixo da barba, sentindo-se desconcertado como um adolescente. Liana teimava em chamar Hallen de “ele”, mas a combinação de masculinos saiu indigesta aos ouvidos, e isso deixou Carlos mal humorado. Ele ficou irritado por não poder negar algo tão patente: o fato de que ele estava fissurado. Fissurado por alguém que ele não fazia idéia se era homem ou mulher. E para remendar os buracos de seu orgulho, ele insistia desesperadamente em chamar Hallen de “ela”. Só que Liana não ligava para o detalhe esdrúxulo de um pronome, Carlos, sim. Ele temia um pronome trocado como quem teme um 38 apontado para a testa. Para um machão inseguro, um atestado de viado e um de óbito diziam muito em comum. Mas é claro que aquilo era uma total imbecilidade, sobretudo para alguém que trabalha com moda. E o fato de ficar constrangido por se dar a imbecilidades o deixou ainda mais irritado…
– Minha nossa, o que eu fiz pra você, Carlos? Estou só brincando…
– Eu sei. Quem você disse que era a empresária? – Ele fez por desviar do assunto.
– Carlitos! Você não ficou bravo por que eu disse que está gamado nele, não foi? Que besteira, ele é lindo! Você tem um olho estético genial, você é fotógrafo… tem bom gosto!
A conversa não estava tomando um rumo bom. Carlos respirou
fundo e contou até dez, bem rápido para que Liana não percebesse que ele contava até dez.
– Acho que eu nunca vou fotografá-la. – Disse finalmente.
– Você vai! Amanhã nós estaremos lá na Bienal. Ele vai estar na passarela, você vai estar na primeira fila, sua câmera vai estar engatilhada e você vai tirar tantas fotos quantas quiser!
Ele iria vê-la na passarela. Na passarela…
Ato 4
Era a abertura do quarto dia de desfiles. A pista do São Paulo Fashion Week se preparava para receber a coleção do almofadinha endinheirado que Pitéu detestava. De repente, um estrondo. Um apagão. Olhares de espanto na platéia. Os fachos de luz verteram sobre a passarela, as paredes foram percorridas por ondas luminosas de pisca-piscas e uma tela de fundo abriu-se com projeções de arte digital psicodélica. O DJ introduziu a batida, as caixas de som estremeceram no compasso da música eletrônica. Os mais conservadores torceram o nariz – era um desfile de moda ou uma rave?
Começou o desfile.
E lá veio ela abrindo caminho! A sensação! Hallen rasgando a passarela com o fio de suas pernas nuas. Linda e imponente, ela veio desfilando uma indumentária preta e prata inspirada em algum thriller cyberpunk; seus olhos verdes entremeados de sombra negra disparando a mirada fulminante. Ela estacou à beira da passarela sendo devorada por uma tempestade de flashes. Fez uma pose despojada, inventou bocas, piscou, chutou, espalhou olhares de desdém e de zombaria: “Olhe pra mim! Ajoelhe-se aos meus pés! Eu deixo você lamber os meus sapatos!…”
Não era mais uma boneca idiota, ela era toda ousadia! Toda ela, despejando vida aos borbotões sobre o corredor insosso da moda. Hallen fazia o que nenhuma modelo teria coragem ou competência para fazer: ela dava vida ao que vestia, incorporava a personalidade do figurino como uma atriz de primeira grandeza; o primeiro espécime de modelo com vida inteligente! Na passarela, Hallen podia ser todos os homens e mulheres do mundo, encarnava qualquer papel, era o manequim mais versátil do mundo e não restavam dúvidas de que ela valia cada centavo que cobrava.
Contudo, depois que o furacão passava, ficava o mundo em frangalhos. Depois de Hallen tudo era cinzento, e até as câmeras fotográficas perdiam a vontade de disparar. Ninguém viu direito quando a segunda modelo entrou, não havia espaço para uma segunda ou uma terceira depois que a primeira roubou o desfile inteiro. E aquilo já nem era mais um desfile, era um duelo desleal de uma estrela ofuscando todo o universo ao seu redor. Hallen subiu à passarela mais duas vezes e depois voltou para o fechamento ao lado do estilista. E em cada momento que ela surgia, a platéia era tomada por um frenesi; os olhares vidravam, os fotógrafos iam à loucura, disparando os canhões fotográficos como metralhadoras. Dali a poucas horas ela apareceria na televisão como a rainha do São Paulo Fashion Week, iria ilustrar os principais jornais e revistas da semana, as manchetes causando furor ao proclamar que a top model mais sexy do mundo não tinha sexo!
Carlos valeu-se das credenciais de Liana para invadir os bastidores tão logo o desfile encerrasse. Ele precisava de mais um relance. Vê-la mais uma vez. Só uma vez. Pra quê? Ele não sabia pra quê! Mas era uma necessidade urgente. Ele sabia que Hallen tinha um camarim particular, luxo de uma estrela do seu porte. Buscando por ela, Carlos se embrenhou no tumulto, no corre-corre, nadando contra o fluxo de modelos, maquiadores, camareiras, cabeleireiros, estilistas… Pois em algum lugar na confusão daquele corredor ele viu a musa voltando da passarela. Ao seu alcance! A ansiedade subiu a espinha, os dedos suados pressionaram a câmera fotográfica, Carlos respirou fundo. Ele iria até ela, sim, mas diria o quê? “Olha, eu sei que eu sou só um pé-rapado que furou a segurança pra vir aborrecer você, mas juro que sou o seu fã número um, venha tomar um café comigo e fará de mim o idiota mais feliz do mundo”? Claro que não iria funcionar, mas era em um momento de desespero e extrema necessidade que um homem percebe que não tem nada a perder.
Não seria tarefa fácil. Na órbita da estrela havia uma empresária, uma empresária-sombra, uma bruxa em tailleur italiano com ares de mulher da máfia. Hallen não percebeu que estava sendo vigiada, mas sua cadela de guarda, sim. E a bruxa escoltou a princesa até a porta do camarim encarando Carlos por trás de suas armações de ouro, dando-lhe um aviso bem entreolhado: “nem pense no que está pensando!”
E fechou a porta.
Ato 5
Ele imprimiu fotos até acabar a tinta da impressora. Entornou mais uma dose de uísque e forrou as paredes do estúdio com Hallen van der Vert até o teto. Desmoronou na poltrona com a garrafa no colo e passou longos momentos apreciando a paisagem. Masturbou-se. O clímax veio rebentando com fúria alcoólica. Ele empunhou a garrafa no ímpeto de atirá-la contra a parede, mas ela escapou por entre os dedos melados e caiu no chão derramando todo o uísque no carpete. Chorou se sentindo um idiota. Não queria admitir nem para si mesmo que estava obcecado. Nos últimos meses, almoçara Hallen, jantara Hallen, e naquele instante ele a devoraria em pedacinhos se o gosto do papel fotográfico ajudasse.
– Estúpido! – Elogiou-se. – Seu grandiosíssimo, magnífico, tremendo filho da puta! Você se merece, Carlos!
Ergueu-se cambaleante e usou as paredes como guia para a difícil jornada até o banheiro. Desmoronou de cara na privada, lançando uma golfada de vômito verde com pedacinhos de papel mal digerido bacia adentro. Seu fígado não tinha aprovado o drinque, ele bebera uísque para vomitar absinto.
De repente, acordou, percebendo que cochilara abraçado ao vaso. Implorou ao chuveiro um bom banho de água fria e xingou a mãe do mesmo quando foi atendido. A água gelada doía a despeito da anestesia alcoólica. Para a sua desgraça, a água fria não espantou o seu fantasma… Ela estava lá com ele! Debaixo do chuveiro, sua pele molhada reluzindo como que envolta em celofane. Ele tentava agarrá-la, mas ela furtava-se do abraço e ria debochada. Ela o acompanhava a todos os lugares, andava a persegui-lo, e para vingar-se, ele a perseguia. Ela estava no banco direito do carro, na mesa do bar, no espelho enquanto ele se barbeava, apitando o jogo de futebol na TV, escolhendo as roupas que ele ia vestir, ao seu lado na cama de solteiro, nos seus sonhos, nos seus pensamentos, nos seus delírios de bêbado, qual uma Deusa intangível e onipresente. Sua silhueta luminosa vencia a cegueira quando ele fechava os olhos, e então ele se embriagava do olhar dela. Seu riso de Monalisa, seus olhos verde-bile aludindo aos prados do paraíso…
Ato 6
A mídia queria saber quem era a musa destruidora de passarelas que havia sacudido os desfiles do SPFW. Para satisfazer a curiosidade, uma coletiva de imprensa foi agendada no auditório do Hotel Renaissance.
Carlos fez a barba, arrumou os cabelos com gel, vestiu um colete lotado de bolsos e foi armado de sua companheira fotográfica inseparável. Um fotógrafo disfarçado de fotógrafo. E nada como ter amigos na imprensa para lhe arrumar as credenciais. Ele chegou cedo para a coletiva e conseguiu uma boa linha de visão para a mesa do auditório. Quando Hallen chegou, as câmeras de TV ainda estavam tomando seus postos, os jornalistas estudando suas perguntas, os fotógrafos ajustando o foco. A estrela vinha fantasiada de mortal, sem glamour nem maquiagem, de calça jeans e camiseta; contrastando com o terninho sisudo da empresária. Pitéu dizia que em determinados momentos era chique posar de gente simples, mas a beleza de Hallen não a deixaria ser simples nem disfarçada de bóia-fria. Ela tomou o seu lugar atrás da mesa, Annika sentou-se à sua direita; as duas ficaram fazendo hora. E para fazer hora, Hallen começou a brincar com o celular, que seria discreto se não fosse rosa-choque-metálico. Frente-a-frente, a modelo e o curioso aparelhinho começaram a parolar:
– Dag, Cilla!
– Goedenavond! Hoe is het, Halleen?
Parecia um celular, mas não era apenas um celular, Hallen conversava com a coisinha como se fosse o seu mascote. E então ficou evidente que a cena não passava de uma propaganda gratuita de um computador de bolso ElantraÓ às vistas de toda a imprensa brasileira. Hallen parecia muito compenetrada no bate-papo com a mini-engenhoca, de vez em quando ela levantava os olhos para fitar o bando de jornalistas, como quem diz: “Estão vendo o meu brinquedinho? Então olhem bem, seus trouxas, porque isso só vai ser lançado no seu paisinho de bananas daqui cinco anos e vocês vão pagar caro por um!”
Quando os olhos já iam procurando os relógios, começou a coletiva. Hallen pousou o aparelhinho perto do microfone, como se ele fosse dar a entrevista por ela, e disse: “goedenatch!…”
– Boa noite! – Disse a tradutora automática ElantraÓ
, apossando-se da voz da dona, era como ouvir Hallen falando em perfeito português.
Como numa boa coletiva, as perguntas começaram a pipocar de todos os lados do auditório, lançadas ao incerto sem uma ordem lógica. O aparelhinho à mesa virou intermediário da conversa, através dele os jornalistas poderiam perguntar em português, ela iria responder em holandês, e todos se entenderiam alegremente.
– Eu não sei como devo chamar você, Hallen. – Uma repórter começou. – Prefere ser chamado por “ele” ou por “ela”?
– Por “você”.
Risos.
– É a sua primeira vez no Brasil?
– Sim. Um país bem quente esse de vocês. – Ela respondeu numa quase-indiferença.
– Há quanto tempo você desfila?
– Dez meses. Sim, foi uma ascensão bem rápida, antes que você me pergunte.
– O que você achou do São Paulo Fashion Week?
– Me impressionou bastante! É um evento que não deve nada para os desfiles da Europa, os estilistas daqui são muito criativos!
– É verdade que foi convidada para a capa da Vogue?
– Sim, estaremos tratando disso em Nova Iorque, na semana que vem.
O editor de uma revista erótica acenou empolgado do fundo da platéia:
– Hallen, você posaria nua?
Ela riu. Estava acostumada a receber todas aquelas perguntas que convergiam para um lugar comum: “quando a gente vai saber que sexo você tem, sua aberração?”
– Talvez. – Ela entregou, sem constrangimentos. – Se a proposta for à altura dessa pergunta que você está se fazendo.
Risos novamente.
Carlos atropelou alguém que ia fazer uma pergunta e saiu-se com esta:
– E você posaria para mim se eu fizesse essa proposta?
Silêncio. Todos os olhares se voltaram para Carlos, inclusive aquele que ele mais ansiava e aquele que ele mais temia. Assim que a tradutora terminou de ecoar a pergunta em holandês, Hallen escorregou um pouco na cadeira com uma cara inexpressiva e a empresária olhou feio para ele. Quem o mané pensava que era?
– Converse com a minha empresária.
“Nojenta!” – Carlos pensou consigo mesmo, vestindo uma cara de banana. E ele queria o quê? Que ela desse uma risadinha e dissesse “sim, pra você até de graça, amor”? Por que não calou a boca?
A coletiva continuou com as mais diversas dúvidas, das mais pertinentes às mais esquecíveis. Os garçons começaram a circular, servindo água e refrigerante aos presentes. Hallen não bebia e, aparentemente, também não comia. Uma anoréxica profissional, mas talvez não fosse simplesmente anorexia, afinal, era melhor não dar pretexto para que uma amostra acidental de DNA derrubasse o segredo que fazia a sua carreira.
Naqueles quinze minutos, Hallen fez o que todo gringo faz para agradar: gastou todo o português que ela não sabia. Não mais do que: “olá”, “sim”, “naum”, “gracias” e “tudo-isso-e-mais-um-pouco-a-Elantra-TronicsÓ -faz-por-você!” Sem mais, a top model e a empresária levantaram-se dando a coletiva por encerrada. Os jornalistas protestaram, ainda havia muitas perguntas a fazer. Hallen agradeceu, desculpou-se pela agenda lotada e emendou as despedidas. Era sempre assim: não tente pedir mais do que quinze minutos de papo a uma estrela convencida de que é estrela!
E ela evaporou do auditório.
Oba! Agora tá chegando ao final a história, como será, hein?
Bjos!
Uma divindade da beleza andrógina cercada de aparelhos ultra-high-tech.
Hummm. Já tou te entendendo, Dona Cris. E ansiosa por mais surpresas!
ai, odeio quando vocês, escritores geniais, fazem isso!
rs
oh! tortura…!
inté.
Ro
Pqp, Cris. Pqp!
muito bom!!!
Ler o que você escreve é “entusiasmante” e brochante. Dá vontade de escrever e de nunca mais escrever. É como ver um filme do super-homem e querer voar; ver um do Batman e querer espancar os caras maus; ler Romeu e Julieta e querer amar.
É querer o impossível, pois é o que você parece fazer. Porraaaaa
(notei a falta do “continua” ao final e fico me perguntando se é o fim, ou se terá mais, como disse a Gi no comentário dela…0
Pois é, pois é…
Faltou o:
Verdade! Faltou o
CONTINUA…
Sexless Hallen – parte final: Dia 9 de novembro, neste mesmo horário, neste mesmo canal!
Patrocínio:
Tudo isso e mais um pouco a Elantra-Tronics faz por você!!