O CAMINHO DA FÊNIX
Luciana Muniz

Ao ver-se defronte da filha mais velha, lhe pedindo para auxiliá-la com um feitiço para recuperar o amor do ex-namorado, em uma fração de segundos se lembrou de antigas previsões que cercaram sua existência.
Naquela época achou tudo muito enigmático, mas com o passar dos anos e das experiências vividas, acabou entendendo o seu real significado.
Observou sua filha mais alguns instantes, se lembrando daquele final de tarde, onde não precisou escalar nenhuma montanha, tampouco ir até um bairro distante e quase inóspito para encontrá-la. Ela estava ali, sentada em sua frente e olhando fixamente para algumas cartas coloridas, dispostas na mesa impecavelmente branca. Era Olga, sua avó.
?
No breve momento em que Olga parecia hipnotizada pelas figuras das cartas, e que para ela pareceu uma eternidade, olhou ao seu redor. Reparou na janela aberta, com as finas cortinas a balançar melancolicamente e com o sol se pondo ao fundo, fazendo a sala adquirir tons alaranjados. Estava no décimo andar, de onde costumava visualizar a movimentação da Vila Mariana, bairro onde havia passado a maior parte de sua infância.
O incenso de patchouli queimava ao lado da mesa, seguiu com o olhar o percurso da fumaça e sentiu o seu aroma, que tornava o confortável cômodo ainda mais místico. Estava até então enlevada pelas emanações do ambiente, quando a voz segura e um pouco rouca de Olga a trouxe de volta para a questão à qual buscava respostas:
– É um homem que está tirando o seu sono, não é mesmo?
– As cartas lhe disseram isso?
A anciã à sua frente sorriu senhora de si, tinha a sagacidade traduzida em seu olhar. Mesmo os mais céticos, como era o caso de sua neta, sucumbiam à curiosidade de saber se eram amados. O amor ainda era o assunto recorrente em suas consultas.
– As cartas apenas confirmaram a minha intuição, também sou mulher e sei reconhecer o olhar de uma pessoa apaixonada.
– E ele? Está apaixonado por mim?
– As cartas não me falaram sobre os sentimentos dele, mas preveniram quanto a estrada que percorrerá ao longo desta vida. Cheia de solidão, porém com profundos aprendizados.
– Profundos aprendizados? Quem precisa aprender algo se passar a vida inteira sozinha? Por isso não acredito em nada do que me diz!
– Acreditaria se eu a iludisse e lhe dissesse que ele está apaixonado? Veio em busca de respostas ou de alguém que lhe diga exatamente o que gostaria de ouvir?
A jovem ficou muda, os grandes olhos azuis revelavam sua decepção com as palavras da avó. Porém Olga sabia que a neta ainda era muito jovem e que com o tempo entenderia o valor do seu caminho. Aconchegou novamente as cartas em suas mãos, se preparando para novamente embaralha-las quando ela sussurrou:
– Então só há uma solução…
Parou de embaralhar as cartas e fitou o rosto decidido à sua frente, por fim falou serenamente:
– E qual é a sua solução?
– Preciso que me ensine a fazer um feitiço! Assim ele ficará apaixonado.
Olga olhou ternamente para a neta, há anos ela ouvia dos que procuravam o seu auxílio os mesmos pedidos, contudo era parte de sua missão desmistificar a idéia que a maioria das pessoas tinha sobre os feitiços, principalmente os amorosos:
– Você é uma mulher atraente, não precisa fazer uso de feitiços para conquistar o homem que ama.
– Mas disse nas entrelinhas que ele não está apaixonado!
– Mas isso não quer dizer que não possa vir a se apaixonar por você! Se decidir percorrer o caminho mais fácil e realizar um feitiço para que ele se apaixone, estará se rebaixando!
– Me rebaixando? Como assim?
– Estará assinando o tratado de incapacidade de conquistar alguém, fazendo uso do poder do oculto. Não pense que este uso é gratuito, há um preço a se pagar e não estou me referindo ao dinheiro. Quero que entenda que feitiços realmente funcionam, porém você estará interferindo na vontade dele. Como conviverá consigo mesma sabendo que ele só está ao seu lado graças a um feitiço e não pela mulher que você é?
Ela abaixou a cabeça envergonhada, realmente não tinha pensado nisso.
– Há muitas coisas que você ainda aprenderá, pois nada é por acaso. E se o seu caminho é cheio de paixões tão fortes quanto fadadas ao fracasso, é porque os Deuses querem que você aprenda algo com tudo isso. E a solidão, que será tão presente em seu caminho, irá auxiliá-la a descobrir dentro de si mesma tudo o que precisa saber.
– É inevitável que eu seja solitária?
– Você será feliz, mas antes precisa aprender a sua forma de servir ao mundo, a sua missão.
Olhou fundo em seus olhos e acrescentou:
– Sua estrada será muito parecida com o caminho da fênix, jamais se esqueça disso.

?
Alguns anos se passaram antes que ela pudesse entender o que Olga quis lhe dizer naquele final de tarde. Havia traçado sólidos objetivos para a sua vida e como sofreu profundas decepções na vida amorosa, acabou por colocar sua vida particular em segundo plano.
Trabalhava intensamente, estudava além do necessário para atender as exigências do curso de letras, realizado na Universidade de São Paulo, e raramente se encontrava com os amigos. Tal comportamento lhe proporcionou momentos de solidão e reflexão, onde aprendeu a se conhecer internamente. Desenvolveu um espírito observador que pouco a pouco foi dando espaço a uma apurada sensibilidade. Passou a compreender melhor as pessoas ao seu redor à medida que compreendia mais sobre si mesma.
Desta forma passou a encarar de forma diferente o final dos seus relacionamentos, vivendo intensamente os bons momentos com os que estiveram ao seu lado. Apaixonou-se por muitos, mas a chama se apagava tão logo o escolhido adormecia em sua cama. Por diversas vezes se julgou volúvel, incapaz de manter um relacionamento duradouro com alguém. Quando achava que seria para sempre, se via novamente perdida em seus caprichos.
Certa vez estava no metrô observando as pessoas do vagão, todas absorvidas em seus mundos, como ela. Ainda analisava as pessoas ao redor, quando alguém lhe chamou a atenção. Era uma jovem, carregando uma pasta destas transparentes, onde o conteúdo fica a mostra. Percebeu uma figura na capa de um dos livros da garota, era uma ave em chamas, uma fênix…
Imediatamente as palavras de Olga saltaram em sua mente: “Sua estrada será muito parecida com o caminho da fênix, jamais se esqueça disso”.
Como uma inspiração divina se lembrou que o Centro Cultural era um ótimo lugar para se pesquisar sobre os mais diversos assuntos e impulsiva como era, não pensou duas vezes antes de decidir descer na estação Vergueiro.
Chegando ao Centro Cultural, foi direto para uma das bibliotecas, onde pesquisou sobre o mito da fênix, a ave mitológica que se consome em chamas e que renasce das próprias cinzas em um ciclo eterno de nascimento, morte e renascimento.
Em um primeiro momento não conseguiu estabelecer nenhuma ligação entre a vida que levava e a mitologia, era persistente em seus projetos de vida, mas sentia que não era bem aquilo que a tornava cúmplice da trajetória da ave mitológica.
Decepcionada por não encontrar nas bibliotecas as respostas que buscava, voltou para casa. Mal colocou os pés na sala e viu sua mãe com os olhos vermelhos de tanto chorar:
– Mãe! O que houve?
– Sua avó faleceu… Estava te esperando para irmos para o cemitério, não consegui falar com você no celular.
– Eu desliguei, estava na biblioteca.
– Seu pai já está cuidando de tudo, mas precisamos ir agora.
O resto da noite foi angustiante, era começo de inverno e um vento frio percorria os corredores do cemitério, onde o corpo de Olga estava sendo velado.
Assim que a viu acomodada no caixão, sentiu uma profunda tristeza. Olga era mais do que sua avó, era uma mulher vivida e sábia, destas que infelizmente não há em abundância por aí.
Após o enterro, todos estavam silenciosos e exaustos, e ela era uma das mais absortas em seus pensamentos. Chegou em casa e foi direto para o quarto, não queria falar com mais ninguém.
Estava quase adormecida, quando subitamente sentiu uma presença ao lado de sua cama. Olhou assustada em volta temendo encontrar o espectro de Olga, mas nada viu, no entanto seus pensamentos sobre vida e morte fervilhavam. Sentiu-se desprotegida, agora que não teria mais os sábios conselhos de sua avó.
Deste momento em diante percebeu que estava ainda mais sensível, podendo perceber nitidamente as emanações dos ambientes que freqüentava. Tinha sonhos premonitórios e uma intensa necessidade de entender os mistérios do universo. Passou a estudar as ciências ocultas e com o tempo se tornou uma sacerdotisa, como a avó.
A partir de então entendeu suas necessidades como mulher, saberia reconhecer imediatamente o olhar daquele que seria o seu consorte e então aguardou a sua chegada.
Quando ele enfim apareceu em seu caminho colorindo os seus dias, se casou e lhe deu duas filhas, uma delas agora sentada à sua frente com as mesmas dúvidas que ela um dia teve.
Foi ela quem fez com que tivesse um déjà vu, recordando a tarde em que recebeu conselhos de uma avó que sabia enxergar além. Tão além que previu que em algum momento ela entenderia que o conhecimento não deve morrer com quem o possuir, deve ser passado adiante, mas de forma sábia, plantado como uma semente. Olga sabiamente plantou magia em seu coração, a fazendo perceber que a cada acontecimento importante de sua vida, ela se renovava, passando a também enxergar mais além.
E agora havia chegado a sua vez de seguir o caminho da fênix e plantar uma semente, cujo objetivo era renascer na alma daquela que precisava entender que sentimentos nascem e morrem todos os dias, alguns se acabando para sempre, outros apenas renascendo ainda mais fortes!

 

13 Responses to “O CAMINHO DA FÊNIX
Luciana Muniz”

  1. Uma leitura leve, fluida, agradí¡vel… Parabéns!

  2. Líº, parabéns! Mais uma casa a receber seus contos e textos. Como sempre, conseguindo ver e pensar além do comum.
    Beijos!

  3. Oiiii Lu!

    Muito boa essa crí´nica, vocíª estí¡ de parabéns!

    Tudo de bom e beijocasssss….

  4. Oi Líº, tudo bem? Muito mais do que um elogio eu gostaria de tecer um comentí¡rio.O conto é í³timo, é leve e possibilita uma leitura fluida e agradí¡vel.A técnica de histí³ria circular deu um toque ao texto, que é curto, de sentido é de compreensí£o sem muita dificuldade para o leitor.Parabéns pelo talento, grande abraí§o!

  5. Parabéns, Líº, por levar adiante o que vc acredita.

  6. Seu conto nos faz refletir sobre valores e conhecimentos, familiares e humanos pelo qual todos jí¡ passaram, estí£o passando ou irí£o passar em estí¡gios diferenciados da vida.

    Parabéns!!!

  7. aceite sí³ os conselhos que valem a pena, é isso ae LU
    :) ) tí¡ lindo seu texto de estréia !
    vc arrasa, seja com vampiro, seja com magia, seja com o que for :)
    tb gosto de escrever com destreza diversos temas e te dou meus aplausos CLAP CLAP CLAP

    kisses

    DíŠ

  8. Saudaí§íµes.

    Gostei do tema, da histí³ria e da maneira como vc dissertou sobre o assunto,tornando o texto de fí¡cil entendimento.
    Acho que algumas vezes escrevemos com o coraí§í£o, transformando em palavras nossas crení§as, desejos, ideais… Seu coraí§í£o escreve muito bem, Lu.

    Parí¡bens,continue assim.
    Bjus.

  9. Um belo texto, feminino e edificante sem ser piegas. Mí¡gico!
    Parabéns pela superestréia, Lu!

  10. Parabéns moí§a!

    Esse conto tem a sua cara. Beijos.

  11. Oi Líº!
    Mais uma vez vc me surpreende com um conto leve e muitissimo agradí¡vel , e sempre com uma pitada de reflexí£o . Se jí¡ achava sua dinamica com vampirismo otima , fui apresentado a mais uma forma de escrita surpreendente desse seu talento que ní£o para de transbordar, para nosso deleite!!

    Um bjo e Parabens!

  12. sutileza, leveza e forí§a.
    nada chato, nem piegas.
    sensibilidade sem apelaí§í£o.
    muito bom.
    deu até uma pontadinha de saudade da minha aví³zinha que jí¡ foi embora…
    parabéns!

  13. Ois Lu, cada vez me surpreendo mais com o seu talento, parabéns!

    Bjs

    Marcia Bifulco

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