O MESSIAS DECIDIDO III
O PíƒO QUE O ANJO AMASSOU
Richard Diegues

Com um olhar atento, Fred esquadrinhou o ambiente ao seu redor. Ainda sentia que estava sendo seguido, mas ní£o conseguia localizar por quem. Ou pelo quíª.

Conhecia bem o Vale do Anhangabaíº. Passara uma parte ruim de sua vida ali. Dormira em cada um dos cantos onde o vento e a chuva ní£o alcaní§avam.

Entí£o finalmente viu o sujeito. Estava sentado em um banco, aparentando a mais absoluta calma. Tranqí¼ilo demais para estar no vale í quela hora. Ní£o era natural. Fred foi se aproximando. As mí£os nos bolsos do casaco. As pistolas também, destravadas. Hábito apenas. Reconheceu o rosto a sua frente. Suspeitava que com aquele, as armas de nada adiantariam. Parou a dois metros e o encarou. Eram velhos conhecidos. Sabia que as maneiras dele eram tí£o polidas quanto suas unhas, e tí£o ariscas quanto seus olhos. Perigoso, sim.

– Soube que tem feito muita baguní§a aqui em Sí£o Paulo, Frederico.

– Fred! – resmungou entre os dentes, irritado, antevendo aborrecimentos torrenciais.

– Que o seja. Muita baguní§a, Fred.

– Ní£o gosto de vocíª. Ní£o gosto de ser seguido. Dois pontos contra. Entí£o diga logo o que quer comigo, Miguel.

O outro retirou um cubano grosso de dentro do paletí³ e acendeu-o com um fí³sforo. Tragou a fumaí§a devagar, observando a brasa até se arredondar em toda a ponta. Fred sabia que ele queria apenas irrita-lo. Ainda mais. O máximo possível.

– Ní£o faí§o mais parte da panela angelical. Há dois anos estou por aqui, apenas me divertindo. Sem compromisso. Rodando pelo mundo, como vocíª fazia algum tempo atrás. Resolvi apenas bater um papo com um velho amigo que vi de passagem. Nada de mais.

Fred sabia que com Miguel ní£o havia um nada de mais, mas limitou-se apenas a concordar com um grunhido. Sentou-se ao lado do ex-arcanjo. Ele lhe deu um charuto. Os dois ficaram ali, fumando e observando o vale deserto.

– Quando eu tinha dezesseis anos, vim morar aqui – Fred comentou, fazendo um arco com o braí§o em direí§í£o ao Anhangabaíº, soltando a fumaí§a azulada para o alto. – Foi onde aprendi a roubar para sobreviver.

– Comeu o pí£o que o diabo amassou, ní£o foi? – comentou Miguel, sem ironia. – Foi depois que sua mí£e morreu, certo?

– Foi o pí£o que o anjo amassou, na verdade. Eu havia fugido do reformatí³rio naquela noite. Fui pra minha casa. A polícia invadiu a favela, atrás de mim e de mais uns gatos pingados que também eram de Helií³polis. Os que fugiram na mesma leva que eu, e também eram de lá, sí³ tinham ali pra voltar. Ní£o havia escolha. A polícia sabia disso, entí£o foi fácil achar os fujíµes. Mataram os gatos pingados. Mataram os vizinhos. Mataram minha mí£e. E me mataram também.

O anjo sorriu. Fred sabia que ele conhecia bem a histí³ria. Estava lá. Levou a mí£o ao peito. Tinha muitas cicatrizes de bala nele. Nenhuma daquela noite, todas foram posteriores. Levou dez tiros do Esquadrí£o da Morte. Mas um anjo, Miguel provavelmente, até onde Fred sabia, providenciou para que acordasse na manhí£ seguinte. E sem nenhuma marca para contar histí³ria. Ní£o pensou em nada ao acordar. Na verdade, evitou pensar. Resolveu chorar a morte da mí£e longe dali. Fugiu para o centro de Sí£o Paulo, onde poderia se misturar, se esconder, passar despercebido. O Vale do Anhangabaíº era um bom lugar para isso. Passou dois anos mendigando pelas ruas.

– Deve ter sido estranho acordar depois de morto. Os outros dois, os que vieram antes de vocíª, também acharam muito estranho. E eles ainda sabiam o que estava acontecendo, vocíª ní£o fazia a mínima idéia. Pensou que ní£o haviam acertado vocíª?

Com um grunhido, Fred assentiu. Na época realmente havia pensado que dera sorte. Milagres ní£o aconteciam na vida dele. Pelo menos, naquela época, ele pensava que ní£o.

– O que vocíª quer realmente, Miguel? – Fred perguntou bruscamente, dando por encerrada a fase de amabilidades.

– Está certo. Eu quero salvar o teu rabo, Fred. – Pausa. – Novamente. Mas dessa vez, por minha conta.

– De quem?

– Dos de sempre: Rafael, Gabriel, Uriel e toda a tropa de “elsâ€? que vocíª já conhece.

– E como eles me encontraram?

– Ainda ní£o encontraram. Por isso eu estou aqui. Tome – estendeu um pedaí§o de papel para Fred – aí está o endereí§o do cara que me disse onde te achar. í‰ um médium. Consegue sentir vocíª ou algo assim. í‰, algo assim. E ní£o hesitaria em vender o seu paradeiro por uma ninharia. í‰ um dos falsos profetas, aqueles que vendem seu dom, literalmente. Se eu te achei usando ele, os outros também ví£o pensar nisso.

Um nome e um endereí§o. Endereí§o pequeno, nome grande. Já o conhecia. O mataria sem peso na consciíªncia. Mas havia algo que estava fora de lugar. Cheiro de armaí§í£o. Mas apesar do seu faro, Fred ní£o conseguia achar de onde vinha o fedor.

– O que vocíª leva nessa? – Fred perguntou, levantando do banco, jogando o restante do charuto no chí£o.

– Vocíª fica aqui, no seu corpo. Eu também fico aqui, nesse meu corpo, bem vivo. Todo mundo fica bem. Se vocíª morre, novamente, o céu vai mudar bastante. E eu vou ter que voltar pra lá. E ní£o quero isso. Vocíª sabe que dessa vez extrapolou, ní£o sabe? Ní£o vai ter uma quarta volta, entende? As coisas ví£o ficar bem complicadas lá em cima. E sinceramente, ní£o agí¼ento mais Metatron, a Voz, na minha orelha. Trate de ficar por aqui, entendeu? Ní£o deixe os outros arcanjos te encontrarem. Se isso acontecer, vocíª vai desencarnar mais rápido que um peido de demí´nio.

– Entí£o vocíª está querendo garantir que a tua turma ní£o me ache, pra poder continuar por aqui fazendo o que bem entende. Ní£o é a minha pele que vocíª está querendo garantir, é sí³ o teu rabo celestial.

Miguel sorriu com desdém. Ní£o gostava de Fred. Sabia que Fred também ní£o gostava dele. Tiveram um bom desentendimento quando se encontraram da íºltima vez. Ele jogou na cara de Fred que o ressuscitou. Fred rebateu que ní£o acreditava muito, e que se ele fizera aquilo, foi apenas por ser um pau mandado. A briga foi boa. Anjos sí£o duros de derrubar. Um arcanjo entí£o, é como lutar com um elefante, usando apenas uma vara de bambu. E Miguel era um arcanjo. Por sorte, era justamente o arcanjo incumbido de fazer com que Fred retomasse o caminho certo. Ní£o teve íªxito na época, é claro.

– Vocíª cuida da tua vida. Eu cuido da minha e da tua. Enquanto der, vou te protegendo.

Por um instante, Fred se botou de pé e ficou observando o céu com uma expressí£o meditativa. Pernas afastadas, mí£os nos bolsos, olhar perdido. Entí£o sua expressí£o se fechou. Seu rosto era o prelíºdio de uma tempestade. Miguel sentiu um calafrio. E isso nunca havia acontecido antes. Mas ele conhecia Fred e sabia que ní£o podia brincar com ele. Arriscou tudo quando tentou parecer estar fazendo um favor para ele, ní£o para si mesmo. O truque falhou.

– Proteí§í£o… – murmurou Fred. – Isso me dá uma boa inspiraí§í£o. Ouí§a um salmo.

O ex-arcanjo retesou os ombros, mas permaneceu sentado, alerta, pronto para uma briga se necessário. O charuto estava quase no fim, mas ainda havia tempo. E ele, apesar do corpo humano, ainda tinha uma boa parte da forí§a celeste, e isso era mais do que o bastante. Certamente, tinha muito mais forí§a física e agilidade do que Fred. Aguardou.

“Tenho inimigos em toda parte agora! Para onde quer que olhe existem ameaí§as brotando. E agora até mesmo os anjos me dizem: nem Deus pode te ajudar. No entanto alguns ainda se dizem escudo para mim, me prometendo proteí§í£o, me passando de salvador a resguardado. Berro aos céus para que me deixem em paz, e de lá, do santo monte, ouí§o a negativa. Quero apenas viver dia apí³s dia, acordando para batalhar para que os bons tenham seu sustento, mesmo que tenha que fazer o mal. Ní£o tenho medo algum dos dez milhares que estí£o contra mim, me circundando. Se quiserem que venham entí£o! Eu me abono a eles! Se me ferirem o queixo, lhes arrancarei a cabeí§a; mas nesta cuidarei antes para que nenhum dente lhes reste.â€?

Miguel pressentiu a confusí£o mais pelo tom de voz usado, do que pelas palavras proferidas por Fred. Cerrou os punhos. Precisava atacar Fred, antes que ele o atacasse. Ní£o o queria morto, mas podia deixá-lo desacordado. E um pouco machucado também. Era mais rápido e forte. Um arcanjo guerreiro. Derrotara centenas de demí´nios e nunca perdera uma batalha. A surpresa estaria do seu lado. Mordeu o charuto, sorrindo.

O charuto explodiu no rosto de Miguel. O disparo foi certeiro. A bala atingiu a brasa, rasgou o restante do fumo, arrebentou os dentes, e por fim, atravessou a cabeí§a, saindo pela parte detrás, juntamente com muitas coisas que estavam no caminho. O corpo tombou.

A fumaí§a do charuto ainda saia pela boca do anjo quando Fred lhe deu as costas, guardando a pistola de volta no bolso.

Enquanto cruzava
o Vale do Anhangabaíº, seguindo na direí§í£o da escadaria atrás do Theatro Municipal, assoviava um trecho da marcha fíºnebre de Bethoven. Gostava da melodia, independente de sua utilizaí§í£o. Seguia para o endereí§o que Miguel lhe dera. Eliminaria o médium. Ní£o tinha porque facilitar para os anjos. Da outra íºnica pessoa que conhecia seu paradeiro, e que poderia entregá-lo, já havia cuidado. Se Miguel ainda fosse um arcanjo, seria mais complicado, pois as coisas seguiriam na lei dos milagres divinos, e Fred detestava essas leis. Mas em um corpo de homem, como o que Miguel usava, era a lei dos homens que imperava. E por ela, as balas costumam matar.

Quase sempre.

2 Responses to “O MESSIAS DECIDIDO III
O PíƒO QUE O ANJO AMASSOU
Richard Diegues”

  1. Richard, primoroso como sempre!
    Deu gostinho de quero mais! Bem que podia virar um livro….

    Beijos

    Patty

  2. ok.
    teremos mais.
    acho que jí¡ deu pra sacar seu objetivo: um livro.
    acertei?
    beijos
    Ro

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