AMPLEXO
Jean Canesqui

Fones ligam os martelos e os tímpanos á usina de energia sintetizadora de ritmo.
Usina de energia é kraftwerk em alemão.
[música eletrônica.]
Ritmo é abalo [redundante].
Radio-Aktivität. Rádio Atividade. [Radioatividade].
A música título [do disco] mixa radiodifusão e radiação.
Alerta contra o uso [perverso] da energia nuclear.
A versão sobrevivente ao tempo [executada ao vivo] se inicia versando sobre lixo radioativo [...]

TRIPAS & TRICÔ
Jean Canesqui

O gramofone tocava ópera.
Antes sempre tocou a polca.
Antes de Tia Mara enlouquecer e tricotar uma blusa de tripas. Parecia tecer ao invés com barbante, com tripas de galinha. Uma blusa de tripas interminável. Creio que nunca terminou, pois desmanchava quando ninguém via pela noite tardia. Razão? Só dela, a qual, às vezes eu [...]

EU NÃO LI BUKOWSKI
Jean Canesqui

Eu não li Bukowski.

Li Jean Genet.
Certo dia, tesourei curto os cabelos e prendi (desapareci com) os seios quase irrelevantes de uma mulher branca (com aquelas pintas negras em distribuição acidentada na pele macia azeda aguada), magricela cheia de costelas saltadas ( as quais com um bastão ficam musicadas) numa faixa de gazes [...]

O VAMPIRO E A PRISÃO
Jean Canesqui

Lá, naquela cela, há um vampiro.
Era um prisioneiro que morreu e não vieram buscar.
Não esqueceram.
Deixaram.
Havia um propósito:
Putrefar.
Feder.
Exemplificar.
Eis o fruto podre.
Se subvertessem contra os grilhões.
Se levantassem contra a rotina.
A contagem.
A aparelhagem
Eis o fruto colhido.
Porém, foi a natureza a se subverter.
Em sobrenatural.
Em antinatural.
Foi o morto a se levantar.
Três dias defuntos depois, o negrão verticalizou.
Mas esse não era [...]

A CELA
Jean Canesqui

Certa vez, prenderam-me numa cela.

Sem luz. Sem janelas.

Jogaram-me lá para ser esquecido.

Tanta era a treva, que quando fecharam a porta, seu desenho retangular desapareceu. Surgiram paredes, barreiras, muralhas de escuro consistente e frígido, que numa hora se desfizeram e não eram mais paredes.

Era nada.

Palpável só o chão, pelo qual eu podia, parecia, caminhar quilômetros além [...]

SOBRE CALIBAN
Jean Canesqui

Quando o mundo se remata num fim horizontal, o navio de rei Alonso se desvanece em substância, seguido de todos os encantos, arranjos, ardis e preparos. Próspero retorna à terra pátria, recupera o ducado e traça o futuro de Miranda. Tudo está perdoado! O cajado quebrado. Os livros submersos. Todos libertados! O mago. Ariel. Caliban…
Caliban, [...]

O VINHO VENUSIANO
Jean Canesqui

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Era uma casa anciã. Própria de fulvas páginas de pulp do conto negro. Circunscrita pela pequena cidade redundante, sufocada por mil olhos e bocas vigilantes, cuja fofoca galopante corroía cada vida que tocava, inclusive a fonte da qual emanava de tão corrosiva.
A adega plantada [...]

O CONJURADOR
Jean Canesqui

Na feira, no burgo seguro, circunscrito entre contos rugidos de cousas imprecisas da floresta e do escuro, os homens se reuniam para o comércio, para a festa e para vida, no Dia de Deus ter concluído o cinzelar do mundo. Dia também dos judeus. Os semitas sem terra, sem arma, praticavam o ofício que restou [...]

SOPA
Jean Canesqui

A terra rachou. Craquelê. Assopra. Assombro. Assoprou. Vento assombrado. No mormaço corre (às vezes) o rio fantasma. Miragem em leito morto. Extinto. Seco. Galhos nus. Ossadas peladas. Bovinas. Despidas. Desencarnadas. Desavergonhadas. Desesperadas. Deitadas. Espalhadas. Sossegadas. Paisagem Mortuária. Ossário. A areia parou. Ampulheta cheia. Vazia. Tempo. A sombra do relógio do Sol ali como lá estava [...]

CORREDOR
Jean Canesqui

Eu sou a agente de carceragem Jezabel Jazzamor. A negra alta e calva, com super legais relâmpagos duplos totalitários tatuados nos flancos da cabeça, é a subchefe de carceragem, Mina Marx. Estamos no complexo de contenção Dr. Eno Capitolino, Modo Opus Magnum I, em New Falk. O corredor magenta indica aonde pisam nossas botas de [...]