Encerramento do Projeto

Encerramos aqui o projeto Novas Visões. Durante dois anos (ou um pouco mais) publicamos contos, crônicas, fotos, artes gráficas, poesia concreta neste espaço que conhecemos. Um projeto rígido que fazia com que seus participantes produzissem de forma metódica e periódica.

Durante esse tempo, nossa casa foi um sucesso. Foi delicioso ver as visitações crescerem e receber o retorno dos visitantes. todos os participantes experimentaram esse reconhecimento e se desenvolveram enquanto artistas. E é exatamente por isso que o projeto precisa se encerrar e se transformar.

A partir deste mês de maio, passamos a um novo projeto chamado “Novas Visões: Arlequinal”, de colaboração coletiva, com mais liberdade e independência de seus membros. Uma iniciativa mais madura e abrangente, buscando na fragmentação a completude.

Fica aqui um abraço e agradecimento a todos que participaram destes dois anos de história do Novas Visões, em especial à equipe original e à equipe atual. Gostaria de nomear a todos mas tenho medo de esquecer alguém.

Esperamos vocês no endereço http://arlequinal.novasvisoes.com.br.

Abraços,
Fernando de Freitas Leitão Torres

OLHARES
Egnaldo Oliveira

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La Boca, Buenos Aires.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCE ou O INÍCIO DO COMEÇO DO FIM

– Mas, então, acabou?

– É, acabou.

– Como assim, acabou?

– Acabando…

– Não, tem que ter um final mais digno, um final mais brilhante… Olha, eu pensei em colocar no final umas vedetes, com o nome em uma placa, dançando…

– Pra quê tudo isso? Não é mais digno sair de fininho, uma saída à francesa…

– Não. Pelo menos, alguma justificativa a gente tem que dar.

– Justificativa? Pra quem?

– Pro público…

– Pelo quê?

– Pelo fim…

– Mas aí já reside a justificativa. Fim. Acabou. Não tem mais.

– Vocês brigaram?

– Não.

– Rolou boicote?

– Também não.

– Então porque acabar? Estamos em abril…

– Porque tudo tem um início, um meio e um fim. Acabou a idéia original, já fizemos o que tínhamos que fazer, pronto, já estancou, chega…

– Que fim mais obscuro…

– Que nada… Tudo na vida é sucessão de fins.

– Aonde você quer chegar?

– No fim. Para começar uma coisa nova, é necessário encerrar o antigo. Uma prática milenar do Feng Shui…

– Mas precisava ser assim, tão sem glórias…

– Mas glórias tivemos. Deu muito certo enquanto funcionou. Só que, para começarmos 2009, tivemos que encerrar 2008…

– Banalizadora demais sua teoria…

– Diria eu “breve e resumida”. Além do mais, é o princípio básico da vida, do dilúvio bíblico, em parte do Hegel e até do salário e das despesas…

– Não é simplesmente dizer para o público: “bom minha gente, acabou, todo mundo para a casa como se ninguém tivesse visto absolutamente nada do que se passou aqui.” Tipo crime perfeito…

– Mas é precisamente neste fim que surgirá um novo começo. O eco do que acabou ressurge em ato durante o nascimento do novo.

– Eu não sei lidar com o fim…

– Talvez por isso, você não tenha atingido a sabedoria que você tanto procura…

E continuaram a caminhar sem se desviarem, por uma rua mal iluminada.

E sem fim.

RELICÁRIO
Yule Barbosa

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óleo s/ tela

LUZ, CÂMERA, AÇÃO!

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AMPLEXO
Jean Canesqui

Fones ligam os martelos e os tímpanos á usina de energia sintetizadora de ritmo.

Usina de energia é kraftwerk em alemão.

[música eletrônica.]

Ritmo é abalo [redundante].
Radio-Aktivität. Rádio Atividade. [Radioatividade].

A música título [do disco] mixa radiodifusão e radiação.

Alerta contra o uso [perverso] da energia nuclear.

A versão sobrevivente ao tempo [executada ao vivo] se inicia versando sobre lixo radioativo e invoca [necromancia atômica] denominações infaustas.

[Chernobyl, Harrisburgh, Sellafield, Hiroshima.]

Radio-Aktivität foi lançado [na Alemanha] em 1975.

33 [anos]. Dado [datado]. Futurismo [propositadamente] embolorado. Cadência [caduca] em cinismo [cirúrgico]. Uniforme [aderente] imobilidade. Arranjo [Elemental] com batida [narcótica]. Tecnologia [rude]. Alegria [alienada].

[Corte] Abstrato:

[Letras =L]

[M = Música]

[Afasia = Af]

[Propósito = P]

[Pa = Poesia]

[Bl = Beleza]

[Obs = Observação]

[Dúvida = ?]

Então;

[(L . Af) + M] / P = ? <-> Pa = (Bl . P) / Obs

No caso;

Ab. Bl ? Pr

Sendo;

[Ab = Abstrato]

[Pr = Profecia ]

PRAAA!

BÓIM!

CLANG!

_Ô!

Escapulo [PULO] do desatino [doidivanas] matemático do fetiche [feitiço] tecnológico numa batida trivial.

A roda [a velha roda da máquina] passou sobre a lombada e o pneu não amorteceu merda nenhuma e no coletivo ganho um amplexo [coletivo].

Meu digital pára.

Fim dos amplexos.

_ Puta solavanco, mano!

Recoloco o fone. Reboto o som.

De novo;

Radio-Aktivität foi lançado na Alemanha em 1975.

O ano em que eu nasci.

No Brasil.

Meu presente é o futuro daquele passado.

Idealizado. Profetizado. Malogro alcançado.
O que se acertou é o nosso presente.

Olho para os lados.

_Tá aqui!

Ônibus lotado.

Uma renca de peão.

Cansados, descansados, cansados.

Várias classes unidas num estado aleijado de conhecimento com caixinhas brilhantes em mãos.

Livres do ruído. No ruído.

Uniformes. Aderentes.

Imóveis em movimento.

Ligo meu digital.

Avançamos no complexo.

Estou na Autobahn.

[Amplexos.]

RUA
Rodrigo Motta

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Rodrigo Motta, 2009

EITA. EITA. A MENINA DE AQUI. – Da série “Girassóis sorriem dentro dela”
André Moncaio

Girassóis sorriem

dentro dela girassóis giram garbosos.

Gloriosos na sua amarelice.

Verdes grandes caules.

E se preenchem com espelhos.

Era tudo. Era ali. Sorrir com ela. Só rir. Pelas linhas de Maria. Costuradas linha a linha. Aranha. Formiga. Túnel iluminado. Um caminho sem saber. “Eu vou sem nenhuma direção. E eu sou. Não preciso nada mais”. Eita. Eita. Como é bom ouvir o mar. Rio em janeiro caudaloso. Inespera a solidão. Inspira geradores. Margaridinhas caídas na grama. Rosas não. E fogo fato. Inespera o amanhã. Inespera o coração. Pela janela pouca luz, suave, azul. Solzinho. Na varanda a menina não parava quieta. Pequenina. Espevitada. Corria atrás do filhote. E ria. Brilhava os cabelos no contra-luz. Uns pezinhos lindos pequenos. Gostava de olhar pra ela. Enquadrada pela porta, ora pela janela, quando alcançava o chão de terra batida. E ai avoar as galinhas.

Aquele contra-luz tropical sempre lhe lembrava a menina. Girando. E gargalhava. Mas quando o olhava fundo nos olhos parece que via seu futuro todinho. Eita olhos fortes. Olhinhos jabuticabentos. Brilhosos. E via nos olhos dela tudo aquilo. Um túnel. Longo e misterioso. Para encontrar os girassóis girando garbosos. Bem no meio de sua alma. Daquele serzinho divino. E se divertia ao vê-la mandando a tartaruga andar mais rápido. Era incisiva. E a tartaruga ali. Ela acreditava tanto na eficiência de suas ordens que eu creio que a tartaruga acelerava um pouco o passo. E era lindo de se ver. Coisa bonita mesmo. Todo fim de tarde nas férias de janeiro o rio baixava e ela se esbaldava. E fazia castelinhos de barro. “Esculturas”, bradava. A mãe chamava para comer. E nada. Não arredava o pé. Seguia arquiteta. Orgulhosa de sua obra. Quando via os pés maternos chegando, aí saía correndo. E eu adorava. Que linda mulher. Vestido florido. Pezinhos charmosos herdados da filha. Vestido de alça. Altiva. Ensandecia o sol. Caminhava decidida com aquele olhar doce que lhe era característico. Os traços delicadamente fortes. A menina corria. E ria. A mãe sorria. E seguia. Alcançou-a. Caíram as duas na água. Espirrando amor ao redor. Chovia para a formiga que passava ali ao lado a caminho da grama.

NIHIL
Maurício Z. Porto

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O SEGREDO DE MARY CÂMARA

A luz do poste acende o lado externo do velho casebre no suburbano bairro do interior paulista. Mary Câmara dependura em seu pescoço de mulher esguia, uma possante e moderna câmera de filmar Yashica. A mulher, antes de sair para a viela, ajeita os espartilhos por debaixo do vestidinho justíssimo. Remexe suas partes a sentir na pele das coxas uma dorzinha prazerosamente provocante e suportável. Ela geme baixinho para não despertar a avó Enriqueta que dorme no cômodo ao lado da sala.

Nos pés, os sapatos vermelhos de salto-alto, tão afiados feito dois punhais ensanguentados. Sob inquietudes, Mary remexe, ajeita o sutiã que aperta seus seios saltitantes. Parecem duas mangas-rosa maduras a balançar sob a ação dos ventos. Dois melões de carne amotinados sem promessa de fuga do sutiã vermelho que tenta aos fracassos cobrir partes privilegiadas do harmonioso corpo da mulher branquela.

Mary liga a câmera, maquia-se diante do espelho, filma o seu rosto assimétrico de traços que remetem ao gélido semblante de um hambriento conde drácula. A mulher dobra os joelhos, agacha-se e geme baixinho de uma dor mais forte causada pela pequenez da calcinha que justifica a voluptuosa comissão de trás. Atributos em maiúsculas dos quais só poderiam ser escritos naturalmente por páginas femininas. Ela passa batom nos lábios, sorri um sorriso enorme de boca inteira para a lente da câmera. Os cabelos longos deveriam ocultar o seu belo traseiro. No entanto, com perdão por toda redundância válida, tudo que o véu negro pôde, foi seguir suas curvas de paisagem generosa sustentada por longas pernas roliças.

Já passa da meia-noite, horas certeiras marcadas em um enorme relógio de parede dos anos cinqüenta. Mary abre a porta movida dos cuidados próprios de quem não pretende ser notado. Conduzida de passos leves, ela caminha de modo desajeitado, confessa através das passadas, a péssima intimidade que tem com àquele tipo de sapatos. A mulher fecha os olhos, agacha-se, geme baixinho de uma dor suave. Sorri comedidamente antes de encostar-se no muro da casa de número setenta e sete. Ela posiciona a câmera ao chão antes de lançar uma pedra ao telhado do velho imóvel abandonado. Em poucos segundos surgem gatos de todas as direções. Mary simula um voo livre, beija o chão sob violento impacto. Abre a um pequeno pacote contendo fígados de galinha frescos e os espalha por sobre as partes do corpo, para que os gatos tenham um contato imediato com sua pele alva.

Os bichanos não demoram muito tempo para lambê-la da cabeça aos pés. Os animais agem de maneira tão voraz que arrancam pedaços inteiros do vestidinho ensanguentado. Aos poucos os animais vão desaparecendo junto às tais dores das intimidades corpóreas de Mary. Os felinos a lambem até que o seu corpo fique sem vestígios do fígado das penosas. Só então, Mary, seminua e, de franga solta, levanta-se do chão a gemer como uma gata no cio. Empunha a sua velha câmera e filma a dispersão dos muitos gatos os quais tumultuam o telhado da casa de número setenta e sete. Mary filma a lua cheia que enfeita perfeitamente o céu estrelado da madrugada. Ela geme com a corrente de vento que chicoteia sem danos toda a extensão de sua alva pele relaxada, arrepiada de bem-estar cumprido. Mary filma a sombra de seu corpo projetada nas pedras do calçamento e se autocontempla desfigurada e despida das curvas comedidas características das mulheres européias.

Os cães dormem, toda a vizinhança parece dormir àquelas alturas da madrugada. Mary sorri para o meio silêncio que envolve a viela. Ela irá dormir como se houvesse a certeza de ter sido contagiada com a sina de viver mais seis vidas além daquela. Pacifica e interiorana vidinha humana de solidão propositada. Nada de companheirismos, nem meninos, nem meninas. Na verdade, o que Mary queria é ser um bicho solto, povoar os telhados do mundo de bichanos sem dono. Vociferar gemidos estridentes pelas madrugadas sem a vergonha da qual os humanos produzem em si, quando o outro arregala olhos e escancara ouvidos para colher dos podres que o alheio agrega a si mesmo. Tudo em nome da infeliz munição, proposta de apontar resquícios de que o pior do mundo se esconde por manias vizinhas.