06/07/2008

PINBALL LIZARD
Carolina Scoponi

04/07/2008

AMOR PERFEITO
Sel Fly

“Como toda planta queria ser amor
Como todo amor queria ser perfeito
Amor em flor no jardim
Perfeito como todo amor devia ser”

03/07/2008

OS VERMELHOS
Fernando de Freitas Leitão Torres

Nada que se vendia nas lojas dos shoppings lhe servia. Sentou no banco traseiro do carro de seu genro, e pensou em meio à procura que já se tornara cansativa. Eram sapatos para jovens. Já não se chamavam mais mocinhas. Jamais havia sido jovem, fora mocinha.

O caminho percorrido de carro parecia conhecido. Não mais reconhecia os prédios que a cercavam, mas não causavam estranhamento à sua filha e seu genro, que guiava seguro. O passar dos anos só se fez retroceder quando avistou a Catedral. Sentia-se velha e inútil, tivera uma boa vida, sofrera muito, mas passara dos oitenta já fazia uns tempos.

E quando o carro encostou à esquina da Quintino Bocaiúva com a Benjamin Constant, ao olhar para a loja de calçados e bolsas que ostentava em sua placa “Desde 1928”, Maria Cândida mal pôde acreditar que ele a levara logo ali. A mesma loja, um pouco mais moça do que ela, fora o lugar onde comprara seu primeiro par de sapatos. Não que andasse descalça até os treze anos. Mais nova de três irmãs, herdara toda vestimenta que não se reduzira a trapos das duas mais velhas, e seus sapatos, até então, eram todos sapatos usados, sempre com solas novas pregadas com muito esmero e pouca habilidade por um tio que fora aprendiz de sapateiro durante algumas semanas.

Lembrou-se das juntas dos paralelepípedos em que não cresciam folhas verdes. Os carros, tão raros em seu Ipiranga, não deixavam saírem daninhas das juntas nas ruas do centro. E a imagem de um sapatinho vermelho na vitrine nunca lhe sairá da cabeça. Sua irmã mais velha, Maria Franca, iria se casar e era preciso comprar sapatos novos para completar seu vestido com fita, encomendado para a melhor costureira do bairro. Seu pai, altivo com o sempre, ordenou aos vendedores que trouxessem sapatos brancos que coubessem em sua filha.

“Mas eu gostei é do vermelho” apontou a menina.

“Aquilo é sapato de prostituta, minha filha. Você quer envergonhar sua falecida mãe na frente do padre?”. Disse o pai secamente. “Na minha família não existe mulher sem-vergonha!” e seguiram logo rua abaixo para comprar um chapéu.

Sua mãe havia morrido poucos anos antes, por um daqueles motivos que não souberam, ou não quiseram, explicar para a menina. Desde então a mais velha havia se enamorado do filho de um professor da escola normal, que estudara com afinco para se tornar advogado, e Maria Alva fora para um convento, era agora noviça.

Cândida também se sentiu estranha ao colocar o vestido, parecia pequeno, mesmo confeccionado por encomenda. Franzinas, suas pernas no espelho, refletiam-se longas demais. Os braços, igualmente frágeis, tentavam fazer força para acertar melhor o vestido, cansou e foi pentear o cabelo. Olhou bem nos próprios olhos viu um pouco das irmãs nele. Distraiu-se e calçou os sapatos. Deixando o incomodo de lado, sorriu para as visitas ao sair do quarto com as irmãs.

O casamento fora a primeira vez em muito tempo, quase um ano, que as irmãs estiveram todas juntas. Nascidas a cada três anos, a mais velha por pouco não casara com dezoito anos. Sua beleza ainda era desconjuntada, pueril, ao colocar o vestido de noiva parecia ainda mais deslocada. Fixava os olhos ao longe, como uma criança a esperar o pai voltar do trabalho. E Alva, a mais bonita de todas as meninas do bairro, sempre viva e de grandes olhos castanhos e alegres, parecia envelhecida e inchada, mesmo sem as roupas do convento e em seu novo vestido. Ambas, cada um à sua maneira, melancólicas.

A festa não se parecia com o que imaginara até então. Os homens sisudos e as mulheres a chorar não combinavam com a idéia de pernas a bailar em longos passos com o do cinema. Em um canto os homens fumavam e discutiam moral e política, no outro as mulheres cochichavam coisas que todos sabiam. Poucas moças e rapazes foram convidados e estes, quase perdidos, não bailaram.

Alva sumiu logo depois do casamento com alguém. Mandou os netos procurarem a caçula quando estava em seu leito de morte; teve um a boa vida. Teve outros filhos e, com o percebeu a irmã, cercou-se de netos.

*        *        *

Sete meses depois do casamento, Franca afagara a dor da família com um saudável fruto de seu casamento. O menino se chamou Benedito e não se parecia com o pai, assim como os próximos três que se seguiram, cada um diferente do outro.

O pai repetiu até o dia de sua morte que comera o pão que o diabo amassou com o rabo para criar sozinho as duas filhas. Nunca mais o nome da irmã desaparecida foi mencionado em sua frente.

A Cândida até aquele dia restou usar sapatos pretos. O branco ficara pequeno logo e ela deixara de ser mocinha. Casou-se, não muito mais velha que a irmã, com seu único namorado, um empregado do comércio de seu pai. Ficou viúva cedo, seu pai e marido morreram juntos em um desastre de trem. E, com mais de oitenta anos, entrou na loja e comprou os vermelhos.

02/07/2008

FOLHA DE CADERNO
Rodrigo Pignatari

pode ser um pedaço de folha
é um pedaço!
é?
é!
só um pedaço de folha de caderno
não há mais nada além disso
sim,existe um desenho também
um desenho?
sim um desenho
há também uma escada
um redemoinho
ai vem um viajante e fala que é a energia do universo girando
é também
é?
é!
ai vem outro e fala que é o mapa do Brasil ao contrario,a desigualdade social…blabla…
mas no fundo é só uma…

01/07/2008

PREFÁCIO
Keissy Carvelli

Tinha as mãos enfiadas no único cobertor velho jogado numa cama feita de pedaços da miséria expressa no chão, no teto e nos olhos. Repousava os pés inchados, já gastos de tanta vida maltratada, de tanto esforço por nada, e logo atrás, sobre uma caixa velha e suja um relógio de ponteiros imóveis e tão sujos quanto a esperança das palavras que viriam.

Seu Antônio, carinhosamente chamado assim pelo meu sentimentalismo ridículo, esbravejou palavras de dor, de indignação. Na voz rouca traduzia as dificuldades que os cabelos grisalhos e despenteados significavam; a barba espessa num misto de sujeira e suor escondia quase que todo o rosto, mas não os olhos doces de expressão entristecida.

Proferia seu discurso fitando sua própria desgraça, seu próprio estado imóvel e miserável, como se eu, uma estúpida estudante de qualquer coisa, fosse alguém superior a todas as histórias que estavam presas ao nosso redor.

Desculpava-se a todo instante pelo tom rude, pelo desabafo rude, pela vida rude. Desculpava-se pela sua própria situação deplorável, pelas pernas trêmulas e inválidas, pela falta de lágrimas, pelo excesso de entulhos, pelo barraco aos pedaços, pelo cheiro insuportável. Desculpava-se como quem pede perdão por ter, um dia, nascido.

Era ele, sua voz rouca e seu desabafo perante o meu silêncio tortuoso, envergonhado e patético. Era ele contando cada detalhe de sua miséria com os olhos baixos, e eu, sem contar absolutamente nada com o olhar fixo em seu mundo tão diante das minhas percepções.

Agradeci pelas palavras, mas quis agradecer por tudo o que eu não sabia traduzir; quis romper toda a distância que havia naquele espaço tão pequeno; quis colocar, com os dedos, um pequeno brilho que acalentasse os olhos negros.

O homem de nome e dois sobrenomes não pôde levantar, porém tirou com umas das mãos o boné que cobria a cabeça, arrumou cuidadosamente alguns fios brancos enquanto estendia a outra mão suja de cigarro, fome, e fraqueza para um aperto sutil de despedida. Ele sim tinha nome, sobrenome e princípios.

Eu, na minha infame brincadeira de ser, escreveria em tom poético aquilo que não tem ficção nenhuma. Colocaria em metáforas a realidade cravada em pés descalços, barraco em terra, olhos de expressão vaga e senil. Abusaria de assonância, aliteração, verso, prosa, comparação, enquanto a hipérbole, mero personagem físico, de corpo frágil, cigarro acesso e miséria em mãos.

Antônio Alves Pereira dos cabelos brancos e fala rouca fechou os olhos num sono tímido, numa sexta-feira de céu limpo e estrelado, e não mais viu o sol apontar em sua direção.

28/06/2008

PALHAÇOS
Juliana Araújo

clowns

Giz sobre papel paraná

27/06/2008

É O AMOR QUE ESTÁ CHEGANDO
Gabriela Souza Gomes

O amor acorda cedo, despede-se com um beijo e sai apressado pela porta. O amor toma café frio, calça pantufas e se permite continuar de pijamas ao dirigir até a escola. Com olhos gentis, acompanha o portão fechar – quando então volta a preocupar-se com a própria vida.

O amor não cala quando necessário, pois precisa ser sabido. E ao emudecer, permanece tranqüilo por não necessitar ser dito para então, existir. O amor existe e ponto.

O amor traz presentes em dias incertos e embora se esforce, está sujeito ao esquecimento. Nem todo amor ama com números. Nem todo amor ama com palavras. O verdadeiro amor dispensa calendário, faz aniversário todos os dias. Quem ousa escolher dia certo para amar?

O amor é atarefado. Dedica o melhor de si e em seguida se sente esgotado para amar. Quando o amor cansar, seja generoso: não insista, considere o dia de amanhã. O amor sente o passar do tempo, mas otimista, acredita no futuro.

O amor é passível de chiliques. Sente dor de cabeça e cotovelo. Dá bronca e cobra atenção, mas se vê impotente para negar aconchego e cobertor. É cuidadoso o suficiente para não deixar dormir com pés destapados, e caridoso ao permitir que um feixe de luz adentre o quarto escuro.

O amor às vezes não ouve, quando olha, nem sempre enxerga. Não que seja cego, surdo e burro, é apenas condescendente, porque sabe que comparado a ele, nada é grande o suficiente para ser temido.

O amor não chega na hora marcada, mas sempre volta. E é ao cair da noite que o escorregar da chave na fechadura, avisa: É o amor. É o amor que está chegando.

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No ar desde 01/03/2007