
PINBALL LIZARD
Carolina Scoponi
AMOR PERFEITO
Sel Fly

“Como toda planta queria ser amor
Como todo amor queria ser perfeito
Amor em flor no jardim
Perfeito como todo amor devia ser”
OS VERMELHOS
Fernando de Freitas Leitão Torres
Nada que se vendia nas lojas dos shoppings lhe servia. Sentou no banco traseiro do carro de seu genro, e pensou em meio à procura que já se tornara cansativa. Eram sapatos para jovens. Já não se chamavam mais mocinhas. Jamais havia sido jovem, fora mocinha.
O caminho percorrido de carro parecia conhecido. Não mais reconhecia os prédios que a cercavam, mas não causavam estranhamento à sua filha e seu genro, que guiava seguro. O passar dos anos só se fez retroceder quando avistou a Catedral. Sentia-se velha e inútil, tivera uma boa vida, sofrera muito, mas passara dos oitenta já fazia uns tempos.
E quando o carro encostou à esquina da Quintino Bocaiúva com a Benjamin Constant, ao olhar para a loja de calçados e bolsas que ostentava em sua placa “Desde 1928”, Maria Cândida mal pôde acreditar que ele a levara logo ali. A mesma loja, um pouco mais moça do que ela, fora o lugar onde comprara seu primeiro par de sapatos. Não que andasse descalça até os treze anos. Mais nova de três irmãs, herdara toda vestimenta que não se reduzira a trapos das duas mais velhas, e seus sapatos, até então, eram todos sapatos usados, sempre com solas novas pregadas com muito esmero e pouca habilidade por um tio que fora aprendiz de sapateiro durante algumas semanas.
Lembrou-se das juntas dos paralelepípedos em que não cresciam folhas verdes. Os carros, tão raros em seu Ipiranga, não deixavam saírem daninhas das juntas nas ruas do centro. E a imagem de um sapatinho vermelho na vitrine nunca lhe sairá da cabeça. Sua irmã mais velha, Maria Franca, iria se casar e era preciso comprar sapatos novos para completar seu vestido com fita, encomendado para a melhor costureira do bairro. Seu pai, altivo com o sempre, ordenou aos vendedores que trouxessem sapatos brancos que coubessem em sua filha.
“Mas eu gostei é do vermelho” apontou a menina.
“Aquilo é sapato de prostituta, minha filha. Você quer envergonhar sua falecida mãe na frente do padre?”. Disse o pai secamente. “Na minha família não existe mulher sem-vergonha!” e seguiram logo rua abaixo para comprar um chapéu.
Sua mãe havia morrido poucos anos antes, por um daqueles motivos que não souberam, ou não quiseram, explicar para a menina. Desde então a mais velha havia se enamorado do filho de um professor da escola normal, que estudara com afinco para se tornar advogado, e Maria Alva fora para um convento, era agora noviça.
Cândida também se sentiu estranha ao colocar o vestido, parecia pequeno, mesmo confeccionado por encomenda. Franzinas, suas pernas no espelho, refletiam-se longas demais. Os braços, igualmente frágeis, tentavam fazer força para acertar melhor o vestido, cansou e foi pentear o cabelo. Olhou bem nos próprios olhos viu um pouco das irmãs nele. Distraiu-se e calçou os sapatos. Deixando o incomodo de lado, sorriu para as visitas ao sair do quarto com as irmãs.
O casamento fora a primeira vez em muito tempo, quase um ano, que as irmãs estiveram todas juntas. Nascidas a cada três anos, a mais velha por pouco não casara com dezoito anos. Sua beleza ainda era desconjuntada, pueril, ao colocar o vestido de noiva parecia ainda mais deslocada. Fixava os olhos ao longe, como uma criança a esperar o pai voltar do trabalho. E Alva, a mais bonita de todas as meninas do bairro, sempre viva e de grandes olhos castanhos e alegres, parecia envelhecida e inchada, mesmo sem as roupas do convento e em seu novo vestido. Ambas, cada um à sua maneira, melancólicas.
A festa não se parecia com o que imaginara até então. Os homens sisudos e as mulheres a chorar não combinavam com a idéia de pernas a bailar em longos passos com o do cinema. Em um canto os homens fumavam e discutiam moral e política, no outro as mulheres cochichavam coisas que todos sabiam. Poucas moças e rapazes foram convidados e estes, quase perdidos, não bailaram.
Alva sumiu logo depois do casamento com alguém. Mandou os netos procurarem a caçula quando estava em seu leito de morte; teve um a boa vida. Teve outros filhos e, com o percebeu a irmã, cercou-se de netos.
* * *
Sete meses depois do casamento, Franca afagara a dor da família com um saudável fruto de seu casamento. O menino se chamou Benedito e não se parecia com o pai, assim como os próximos três que se seguiram, cada um diferente do outro.
O pai repetiu até o dia de sua morte que comera o pão que o diabo amassou com o rabo para criar sozinho as duas filhas. Nunca mais o nome da irmã desaparecida foi mencionado em sua frente.
A Cândida até aquele dia restou usar sapatos pretos. O branco ficara pequeno logo e ela deixara de ser mocinha. Casou-se, não muito mais velha que a irmã, com seu único namorado, um empregado do comércio de seu pai. Ficou viúva cedo, seu pai e marido morreram juntos em um desastre de trem. E, com mais de oitenta anos, entrou na loja e comprou os vermelhos.
FOLHA DE CADERNO
Rodrigo Pignatari

pode ser um pedaço de folha
é um pedaço!
é?
é!
só um pedaço de folha de caderno
não há mais nada além disso
sim,existe um desenho também
um desenho?
sim um desenho
há também uma escada
um redemoinho
ai vem um viajante e fala que é a energia do universo girando
é também
é?
é!
ai vem outro e fala que é o mapa do Brasil ao contrario,a desigualdade social…blabla…
mas no fundo é só uma…
PREFÁCIO
Keissy Carvelli
Tinha as mãos enfiadas no único cobertor velho jogado numa cama feita de pedaços da miséria expressa no chão, no teto e nos olhos. Repousava os pés inchados, já gastos de tanta vida maltratada, de tanto esforço por nada, e logo atrás, sobre uma caixa velha e suja um relógio de ponteiros imóveis e tão sujos quanto a esperança das palavras que viriam.
Seu Antônio, carinhosamente chamado assim pelo meu sentimentalismo ridículo, esbravejou palavras de dor, de indignação. Na voz rouca traduzia as dificuldades que os cabelos grisalhos e despenteados significavam; a barba espessa num misto de sujeira e suor escondia quase que todo o rosto, mas não os olhos doces de expressão entristecida.
Proferia seu discurso fitando sua própria desgraça, seu próprio estado imóvel e miserável, como se eu, uma estúpida estudante de qualquer coisa, fosse alguém superior a todas as histórias que estavam presas ao nosso redor.
Desculpava-se a todo instante pelo tom rude, pelo desabafo rude, pela vida rude. Desculpava-se pela sua própria situação deplorável, pelas pernas trêmulas e inválidas, pela falta de lágrimas, pelo excesso de entulhos, pelo barraco aos pedaços, pelo cheiro insuportável. Desculpava-se como quem pede perdão por ter, um dia, nascido.
Era ele, sua voz rouca e seu desabafo perante o meu silêncio tortuoso, envergonhado e patético. Era ele contando cada detalhe de sua miséria com os olhos baixos, e eu, sem contar absolutamente nada com o olhar fixo em seu mundo tão diante das minhas percepções.
Agradeci pelas palavras, mas quis agradecer por tudo o que eu não sabia traduzir; quis romper toda a distância que havia naquele espaço tão pequeno; quis colocar, com os dedos, um pequeno brilho que acalentasse os olhos negros.
O homem de nome e dois sobrenomes não pôde levantar, porém tirou com umas das mãos o boné que cobria a cabeça, arrumou cuidadosamente alguns fios brancos enquanto estendia a outra mão suja de cigarro, fome, e fraqueza para um aperto sutil de despedida. Ele sim tinha nome, sobrenome e princípios.
Eu, na minha infame brincadeira de ser, escreveria em tom poético aquilo que não tem ficção nenhuma. Colocaria em metáforas a realidade cravada em pés descalços, barraco em terra, olhos de expressão vaga e senil. Abusaria de assonância, aliteração, verso, prosa, comparação, enquanto a hipérbole, mero personagem físico, de corpo frágil, cigarro acesso e miséria em mãos.
Antônio Alves Pereira dos cabelos brancos e fala rouca fechou os olhos num sono tímido, numa sexta-feira de céu limpo e estrelado, e não mais viu o sol apontar em sua direção.
PALHAÇOS
Juliana Araújo

Giz sobre papel paraná
É O AMOR QUE ESTÁ CHEGANDO
Gabriela Souza Gomes
O amor acorda cedo, despede-se com um beijo e sai apressado pela porta. O amor toma café frio, calça pantufas e se permite continuar de pijamas ao dirigir até a escola. Com olhos gentis, acompanha o portão fechar – quando então volta a preocupar-se com a própria vida.
O amor não cala quando necessário, pois precisa ser sabido. E ao emudecer, permanece tranqüilo por não necessitar ser dito para então, existir. O amor existe e ponto.
O amor traz presentes em dias incertos e embora se esforce, está sujeito ao esquecimento. Nem todo amor ama com números. Nem todo amor ama com palavras. O verdadeiro amor dispensa calendário, faz aniversário todos os dias. Quem ousa escolher dia certo para amar?
O amor é atarefado. Dedica o melhor de si e em seguida se sente esgotado para amar. Quando o amor cansar, seja generoso: não insista, considere o dia de amanhã. O amor sente o passar do tempo, mas otimista, acredita no futuro.
O amor é passível de chiliques. Sente dor de cabeça e cotovelo. Dá bronca e cobra atenção, mas se vê impotente para negar aconchego e cobertor. É cuidadoso o suficiente para não deixar dormir com pés destapados, e caridoso ao permitir que um feixe de luz adentre o quarto escuro.
O amor às vezes não ouve, quando olha, nem sempre enxerga. Não que seja cego, surdo e burro, é apenas condescendente, porque sabe que comparado a ele, nada é grande o suficiente para ser temido.
O amor não chega na hora marcada, mas sempre volta. E é ao cair da noite que o escorregar da chave na fechadura, avisa: É o amor. É o amor que está chegando.

