20/11/2008

ISMÁLIA
Roberta Domingues

O Sol ainda não havia levantado por completo e Ismália caminhava em direção à encosta. As pedras eram lisas e úmidas devido ao sereno da madrugada. Havia que tomar cuidado, o caminho era perigoso, mas a visão e os sentidos outros eram latentes ali, naquele pedaço escondido do mundo.

Seus pés, sutilmente cansados, não se incomodavam de sentir cada trecho frio de terra misturada à folhagem caída ou então, de vez em vez, a algumas pedras. Numa experiência mais exótica do que esotérica, trocava, nesse contato, as energias, renovava-se.

Chegava ao topo junto com a luz amarela, de costas para toda aquela claridade, sentava-se em um estreito planalto à ponta de um desfiladeiro que escorria selvagem até jogar-se mar adentro.

Ismália sonhava horizonte afora; o profundo azul oceânico de seus olhos guardava tudo o quanto podia tragar, todos os turbilhões em sua mente, como grandes espirais, absorvia vida, mas não sabia cedê-la.

Sentada diante de linhas sem ponto de fuga, perdia-se em sua leitura, ora parada olhando o nada, ora presa, absorta em palavra ou frase e quase se afogava em tantas sensações.

Uma gaivota cantava sozinha no céu e distraiu o pensamento ondulante de Ismália, que punha o seu Hemingway encostado e agora questionava sobre a fina e forte linha que separava o instinto e a razão, pois ora queria ser Marlin, ora queria ser Velho, mas quando tudo parecia realmente caótico só pensava num grande redemoinho que poderia devorá-la, sugá-la até a última gota de seus pensamentos.

Via os tubarões como os grandes senhores das ordens impostas, o topo da cadeia alimentar; Insanos, bestas furiosas, devoradores de vida! É isso o que são! Bradava intranqüila num ímpeto de raiva.

Queria ser Marlin, sonhava e fantasiava os movimentos rápidos, intempestivos e verdadeiros, mas não sabia ser assim; só sabia ser velho, não o Velho pensador de peixes, pescador de vidas, mas um velho cansado qualquer.

No entanto, agora, como último ato saberia decidir, veria o profundo das águas bem mais de perto, bem mais real, Seu coração era um grande iceberg ocultado por uma máscara apática, apenas o que se via era a ponta desta montanha imensa através de seu olhar furtivo.

Levantou-se, baixou um pouco o olhar para observar a mistura de grãos de calcário e areia existente debaixo e em torno de seus pés que incomodava um pouco; aquela mistura clara embelezava rusticamente seus pés morenos de Sol nem tão brutos ou delicados, apenas pequenos para um grande caminhar.

Calmamente, agachou-se para pegar, pela última vez, o seu gasto livro, abriu-o, “– Repouse bem, pequena ave… Depois siga viagem e arrisque-se como qualquer homem, pássaro ou peixe.” Sorria decidida, não queria mais errar com o tempo e nem pelo espaço.

Afastou-se um pouco da encosta até recostar-se num tronco de árvore, que permanecia ali há muito, tomou impulso, correu para a extremidade e, num gesto agressivo, lançou sua fantasia o mais longe que pode.

Pensou depois, “era um velho livro, não nos fará falta porque já sei a história.”

ELEPHANT
Yule Barbosa

Óleo sobre papelão

19/11/2008

O ENTARDECER DE MARIE-THÉRÈSE
Maria Isabel Brisolara

 

As paredes refletem o branco da tela, na mão direita prova com o pincel ser destro, feições de amor verde no tom dos cabelos e braços, outra, os olhos dela já percebem, farejam pelos pigmentos olhos menos acinzentados, linhas mais femininas do que as do seu rosto desbotado pelo tempo.

 

Ser Olga não ajudaria, nem ser uma das Claudéis de Rodin. Do que adiantou olhos alongados de bochechas pintadas como maçãs de natureza morta? É pálida de riso sem graça, não há mais brilho quando se tinge os cabelos brancos. Mais silenciosa do que a flor da juventude entre as sobrancelhas e a jugular avista-se um discreto lótus, tão borrado pelo lodo que se faz abstração.

 

Está velha com poucos desejos e em noites de sopro ao ouvido ele vem de mãos cheirando a tinta e a enlaça num estupro mudo de costas para não vê-la de corpo enrugado que chora sensível feito sanfona.

Como os poentes ela morre a cada apagar do dia, de seios melancólicos retratados na poesia azulada do amado pintor, caso não fosse agora tão vazia talvez eterna obra de arte, Helena musa, e se fosse jovem seu retrato ocuparia uma partitura, acordes de um possível jazz.

Mulher de lábios secos e mãos marcadas de nicotina, de acetona e no cheiro de formol o vômito do seu feminino quase andrógino, do seu feminino estampado em frascos de cosméticos, no seu anti Beauvoir, e no oco, bem lá no fundo da madeira que invadiu o peito há os passos daquele sapato masculino bem lustrado rumo a outra inspiração.
Senta-se ele agora, outro número a frente do apartamento, ela o observa, longe, por de trás do enquadrado antigo, solitários cristais quebrados no velho globo ocular a colorir de pedaços o assoalho.

18/11/2008

NUTS
André Ricoy

17/11/2008

SOBRE CALIBAN
Jean Canesqui

Quando o mundo se remata num fim horizontal, o navio de rei Alonso se desvanece em substância, seguido de todos os encantos, arranjos, ardis e preparos. Próspero retorna à terra pátria, recupera o ducado e traça o futuro de Miranda. Tudo está perdoado! O cajado quebrado. Os livros submersos. Todos libertados! O mago. Ariel. Caliban…

Caliban, afinal, está só. Livre em sua ilha, grita!

_Já foste tarde.

Caliban não se percebe. Ainda não há ciência. Anda, não arqueja, anda como uma elegante bípede. Não mais macaqueia. Senhor de si mesmo. Rei Caliban em pé. O filho da bruxa abre os braços da vitória apenas para se ter a ciência de sua crucificação. O filho de Sycorax…

O filho de Syrocax?

(Dizem que Caliban, o selvagem, o disforme, era filho de Sycorax, a bruxa desterrada.

A rainha puta maga, na ilha não nomeada presa abandonada a reger um ministério de espíritos do ar e da loucura, cuja corte em sua caverna se reunia dedilhando cordas de cabelo de moças defuntas e batendo a percussão em tambores de couro de gente pendular em arvore e no cadafalso.

No entanto, o que se fala do morto é menos que a lembrança do mundo. É trapaça para o bom agouro. Às vezes, o que se sabe do morto é tão pouco e se está tão ansioso por conforto e, logo, faz-se de conta que quem foi enterrado foi outro.)

Enquanto Prospero se vai, finda-se o feitiço ladrão da inteligência de Caliban. A ciência sobre sua linhagem lhe brota como um tumor inesperado nos subúrbios do cérebro e toma os dois hemisférios. Mais do que sua perspectiva, dada a sua natureza híbrida, Caliban, sabe como se lesse as páginas1 passadas do tomo acorrentado ao punho do Destino.

Antes de Caliban, noutro tempo verbal:

O vento da tempestade fustigou o rosto exilado.

Não mais o Duque de Milão, Prospero e sua alegria e seu desespero, Miranda, menina, 03 anos, em seus braços, encalharam na areia da ilha, onde diziam não haver ninguém vivo do qual pudesse se esperar o bem.

O banido não acreditava em tudo o que falavam.

Falaram da prisão de uma mandingueira pérfida desterrada por obscenidades e desumanidades. Syrocax pode não ter sido uma bruxa. Pode não ter sido punida pelo mal, mas vítima de capciosa política. E diante da malícia dos príncipes e reis, que poderia sobressair uma feiticeira no método de malefício? E se fosse mesmo uma maestrina dos bruxedos, melhor, pois compraria seus segredos e usaria como instrumentos cortantes da vingança. Não! Instrumentos de edificantes obras da justiça. Isso!

Ao tomar a ilhar, a sobreviver à tempestade, ao conquistar a colina, ao encontrar a fenda na pedra, ao entrar no refúgio da mulher maldita e na oficina de feitiçaria a surpresa foi a recompensa. (A criancinha estava nas mãos. Não havia como deixá-la em lugar salvo.) No lugar de pedras brutas, o mármore branco, falta o caos natural, há a matemática, a perspectiva, o artificial. Olha sem credo. Na entranha da pequena montanha, um corredor alvo ia além dela.

Prospero saiu da caverna, circundou a colina, não ainda sem crer. Retornou para a bocarra aberta na pedra e confirma. Uma dimensão reduzida na aparência e imensa na essência. Uma Casa Compacta. Mágica! Aquele recanto é como os santos maltrapilhos. Dentro é maior do que fora.

Seu primeiro passo ecoou longe no imenso corredor, que se revelou o eixo de um sistema de galerias brancas e suaves, iluminadas no próprio brilho branco. O ar a passar pelas suas arcadas era o mais puro. Respirá-lo, revitaliza. Miranda, que antes gemia por desconforto, passou a dormir suavemente.

Prospero explora. O temor de encontrar o morador definha perante o deslumbre. Não pôde contar os livros nas paredes. Perfilados em estantes. Paredes de livros. Pedras com escritos. Tábuas de argila. Tubos com pergaminhos. Caixas e Placas de um estranho vidro com luzes fantasmagóricas formando uma grafia mística. Até discos de níquel e plástico com vozes com histórias aprisionadas…

Tal como o lugar fosse uma igreja, a qual deidade dedicada o visitante mal desconfiava, as galerias por onde desfilou compunham a nave, Prospero, por enfim, descobriu a abóbada e nela encontrou o altar. Repousada numa cama de sólida pedra alvejada, em trajes idem, era uma mulher cuja pele não era da palidez da derme alva desacostumada ao passeio da carruagem de Apolo e sim natural da neve mais setentrional.

Sycorax?

Pensou o invasor. O errante descuidado que adentrou na caverna da bruxa sem convite, licença ou oferenda. Pensou em conseqüências. Penitências. Nas lendas, sobre feiticeiras que seqüestram os infantes para o lanche, para o sacrifício como combustível de seus malefícios, para verter seus fluídos, sangue, bílis, gordura, para voar, ficar invisível, para matar. E olhou Miranda, delicadamente adormecida.

O que faria? Fugiria? Para onde? A embarcação não agüenta mais o mar. Se esconder na ilha? Ridículo diante de quem pode caçar com feitiçaria. Não. Ele a estrangularia. Mas mãos mortais seriam suficientes? Poderia queimá-la viva enquanto dorme, empala-la com um punhal de ferro frio que se sabe tem enfeito sobre as fadas e seres de estirpe mágica… No entanto, apesar de todo espanto, de sua brancura, do recanto, sua face era de paz serena, quase santa, não havia maldade em sua estampa… Talvez a feiticeira fosse boa, perdoasse sua intromissão se este lhe ajoelhasse e…

Prospero puxou seu punhal e o colou perto da narina da feiticeira inerte. A lâmina não se embaçou. Será que Sycorax de tanto poder, abdicou de respirar?

Ele a cutucou de leve com a arma. Ela não se moveu e o metal afundou no corpo leitoso. Retirou rápido. Verificou. Um pó branco o cobre. Prospero estende sua mão. Tocou Sycorax. Seus dedos se afundaram como se afundassem na neve. Não… Numa estátua de cinzas… Prospero olhou para a substancia pulverizada na sua mão, escorrendo feito a areia e o tempo. Sycorax estava morta. A desintegrar. Suas partículas fugidas, planando no éter.

Prospero era, então, o senhor de seu túmulo.

Alojar-se na casa compacta garantiu a sobrevivência dos exilados e a sanidade e propósito de Prospero, que se determinara a fazer-se de si um mago, e um reabilitado Duque de Milão novamente caso, por meio de seu aprendizado, manejasse direito os mecanismo do fato.

Por meia década, a câmara provinha por meios misteriosos recursos fartos para o bem estar de ambos, fazendo os luxos de seus tempos de glória alívios de pastor humilde. Quando havia sede, água pura enchia ou vinhos de várias espécies enchiam os jarros. Quando havia fome, carnes, sopas, pães e bolo quentes brotavam nos pratos. Porém quando a gula comandava e não a necessidade, a câmara fornecia apenas biscoitos amargos.

O conhecimento também repetia o mesmo desempenho. Os livros saltavam das estantes e se abriam nas mãos e colos de Prospero. As línguas estranhas, de gente estrangeira, mortas ou de nações que ainda viriam ao mundo se vaziam inteligíveis para o aprendiz autodidata. A casa compacta era um útero.

No entanto, um mago não pode apenas receber, deve também procurar. Com Miranda aos cuidados do refúgio, o qual fornecia alimento quando ela queria e não permitia nenhum acidente ou ferida, já que não permitia a entrada de nada que ameaçasse a integridade dos moradores ou objetos ali guardados, Prospero armado com a foice lunar, um dos muitos equipamentos das galerias, saiu a recolher galhos, raízes e liquens para realizar leves feitiços e poções simples, quando…

Quando ouviu.

Era um chamado sensual, porque se fosse um chamado honesto, seria um clamor de dor. Pois era um espírito livre, cuja liberdade era o bem ausente.

_Liberta-me! Por favor, que minha vida será a servidão ao teu nome. Cada desejo teu, meu senhor, será algo realizado sem demora ou segredo.

As súplicas eram de um timbre andrógino, sem se saber se macho ou se fêmea, ecoava na cabeça do novo mago com o calor da paixão a irradiar a partir da caixa cranial para a carne das partes baixas.

Temeroso de ser um engodo, atraído para um mato por uma sereia terrestre, um papafigos, um papalmas, Prospero se contorceu, pensou em fugas e encantos de espada e escudo para uma luta espiritual, porém se rendeu.

_Como te libertarei, voz a serenar minha mente?

_Siga teu nariz.

Um perfume de nostalgia, dos cabelos da mãe, dos pentelhos da amada, do leite fresco, do vinho português e da boa carne assada o guiou entre sombras até a árvore selada. Um carvalho próprio para caixões duradouros, riscado com um corte profundo o selo familiar. Espalhado pela antiga casa da Bruxa, sobre cada umbral, identificando a dona e arquiteta.

Era o selo de Sycorax.

A voz era de alguma coisa presa na árvore pela bruxa. Prospero sabia que a natureza do prisioneiro e a causa dos grilhões revelariam algo de definitivo sobre de Sycorax. Se o condenado fosse virtuoso e o castigo capricho injusto, a finada seria maligna, caso inverso, ele e sua filha dormiram sob o teto de um lar erguido por boa alma. Também significaria que a descoberta poderia ter repercussões desastrosas sobre sua carne e sua alma. Não importava. Já sabia o que precisava fazer e faria.

Nada de encantamentos. A foice da lua se ergueu e, como o astro e o sangue, desceu. Um corte no arabesco e, pronto, quebrou-se a harmonia do cadeado. Ruído na magia. O centro desequilibra e a anarquia anda luz! Lusco-fusco de um fim de mundo!

[BIG BANG/ KEY LIGHT FADE IN/ FADE OUT]

Ariel estava livre.

Prospero caiu entre as folhas e viu o liberto livre de glamour.

A obscuridade em sua pele… Uma cor altamente inflamável… Pensamentos difusos, confusos… Cor verde. Corpo… O esqueleto emerso e terrível. Braços enormes, desproporcionais, símios, gorilas, orangotangos, chimpanzés. Dedos faltantes na mão e no pé. Unhas enormes. Lincantropo fenomenal… Homem-lobo-diabo? Um feral mosaico do diabo? Um canibal? Um anagrama para canibal?

Sem respostas, Prospero desmaiou.

Os olhos do mago se abriram lentamente e de soslaio viram Ariel, o espírito do ar, logo da mudança, logo da loucura, vestindo o glamour de uma dama rosada de formas sinuosas, mui carnosas; de mechas negras caídas lisas, protegida em bata transparente de tecido branco a esconder preguiçosamente suas vergonhas.

_Afasta-te, o que libertei?

_Sou boa fada.

Pelo pouco que lera nas galerias e o muito que vivera na sua vida nada é suficientemente bom e nada é insuficientemente mal para se receber com as tréguas baixas. Então, garantias.

_Diz-me teu nome boa fada.

(suspiro)

_Ariel.

_Ariel! Sendo este seu nome eu a prendo…

Pronto, se antes fora breve livre, novamente estava atado a novo laço.

Ariel sabia. Seria escravo daquele mago inexperiente e se odiava por isso. Sabia ser o único modo de recuperar o movimento. Preso na imobilidade na madeira, o espírito de onde brotava loucura, enlouqueceria, como a serpente, intoxicada pela própria peçonha. Sendo sua gente do éter, ansiava por liberdade e em breve faria qualquer trapaça para consegui-la. Por enquanto as salvaguardas de se seu mestre em manté-la em corda tensa funcionavam.

No entanto, o logro não é confronto, é um manto de enganos que se tece no sono do tolo. Atendendo a cada mando e desmando, apresentando cada sutil encanto, de seu novo mestre, Ariel, naquele momento, uma fêmea satisfez seu mestre fornecendo todos os luxos que seus poderes permitiam. O conhecimento do mundo além da carne e aquém do éter. Menos a exatidão da causa de sua prisão.

_Afinal, gentil criatura, porque Sycorax a selara na árvore? Ela era, de fato, bruxa perversa?

_Oh, meu bom senhor. Perversos e virtuosos não somos todos? De certo para outros ela foi de virtude extrema um dia ou muitos, para mim um dia foi maldosa sem dúvida.

_Por que foi presa duende?

_Nada mais por cometer o crime de ser natural. De ser vento quente e soprar ardente.

E a amante de Prospero soprava miasmas antropomórficos que dançavam e despiam o mago, até um gozo profano o qual apenas o ópio se aproxima.

Miranda brincava na outra sala enquanto seu pai desfalecia e Ariel ventava até lá. Entretinha-se com a pequena. Brincando. Cometendo travessuras. Se fosse permitido o amor dos homens aos espíritos lascivos, talvez Ariel lhe dedicasse algo maternal. Nada obstante, era quase isso.

Miranda quando se cortava em suas aventuras infantis, a fada chupava da ferida aberta o sangue até além de drenar, até a pequena adormecer fraca, o espírito se satisfazer. Para não demonstrar ingratidão, Ariel a despertava em seus braços amamentando-a com leite de fada. Tudo longe da ciência de Prospero, afogado ou em seus estudos ou em jogos prazerosos com fantasmas do outro mundo.

Um belo lar. Um mago. Uma menina. E u espírito escravo. No entanto, nada é eterno. Nem no Céu, nem na Terra, nem no Inferno. Um dia, Miranda fez-se moça. Prospero com todo seu conhecimento arcano, sabia pouco a dizer para a nova mulher feita. No fundo, estava mais interessado em coletar o sangue menstrual para a prática de rituais inéditos.

Ariel farejara a novidade sanguínea e correra pela câmara em rajadas de vento, feito algum canino ansioso, logo assumindo a forma feminina, se ofereceu.

_Mestre, eu que sempre cuidei da pequena Miranda quando era criança, ensinarei as coisas da vida se me permitir…

O espírito foi ministrar o conhecimento da vitalidade. Assustada com a novidade, a pequena que nunca fora orientada sobre esse sangue que sempre há de chegar, correu para os braços do fada amiga.

_Shii, pequena! Sem choro! Você agora é uma mulher. Haverá outros momentos para chorar por esse destino, mas não por agora.

O espectro encarnado cantou uma canção que gerou vapores de sonho, acalmando a pequena e deixando entre os mundos despertos e da morte por uma noite.

Por seis dias, Ariel repetiu a canção. Até que no sétimo Miranda era dela como ela quisesse. A fada abandonou sua forma de mulher e se fez macho, um rapagão, um varão encantado, a qual Miranda recebeu , achando que fosse coisa de sonho.

Um mês, depois, Miranda gritou as dores. Prospero, assustado, invocava gago cânticos de cura, os quais falharam, pois não era doença, mas sim, um ato que se completa com o parto. Despejou-se pelo regaço de Miranda, um grande ovo de jade, do tamanho de um coco, macio e molhado de líquidos uterinos.

Prospero absorto, recobrou-se e foi cuidar da filha, que no reflexo materno agarrou o rebento oval e aninhou. Em primeiro, veio a inquietação, em segundo a humilhação e então o mago enrubesceu e queimou.

_Ariel!

Tomou um bastão de poder que forjara das madeiras náufragas que desembocavam na praia do cárcere insular. Olhou para aquela lança sem o metal da ponta( por isso flutuara) que escolheu para talhar. Muitos morreram por essa madeira(sentiu). Se antes era objeto de destruição, agora é de criação.

Não mais.

_Vem a mim espírito escravo! Traidor! Obscenidade! Ariel, seu nome está preso a mim! Ariel , eu o chamo, duende ardiloso.

Por mais que desejasse soprar da li na corrida do furacão, a fada teve que atender, pois o laço era a Lei. Arrastado, Ariel foi jogado aos seus pés na forma carnal de mulher.

_Ariel! Foste tu que cometeste esta infâmia contra minha família. Contra a minha própria carne. Teu cheiro estava por lá. Admite!

_Sim, oh, senhor. Perdoe esse espírito servo de ti, mas também escravo da natureza.

Armou o cajado como se estivesse na antiga função de lança.

_Queimarei aquela abominação e prenderei a ti numa pedra e a arremessarei no mar. Tu ficarás imóvel para sempre!

Ariel agarrou suas pernas.

_Poupe Ariel e sua cria de sua justa ira e este seu escravo irá reparar a desonra na carne de Miranda…

_Não Basta!

_E a desonra em sua vida, meu senhor!.

_O que?

_Posso devolver-lhe o lar, mestre. Devolver-lhe tudo.

Prospero abaixou o bastão e fitou o serviçal ardiloso a desenhar seus planos.

A virgindade de Miranda foi recuperada e a memória daqueles dias apagada pela ação arcana de Ariel. Feito isso, o duende iniciou um arranjo no tear da realidade de modo a seduzir a Providência e trazer para o julgamento de seu mestre seus inimigos. Permanecia em forma bruxuleante, engendrando prisma e cantarolando assobios sombrios que arrepiavam Prospero, o qual sentia a falta de seu servo como fêmea consorte.

Nesse ínterim, o ovo de jade se chocou. E um bebê alvo como a neve, como…

_Como Sycorax…

Sim, Prospero! Como Sycorax!

Mais e mais semelhanças se esboçaram entre o filhote de Ariel e o cadáver da bruxa que se esfarelou.

O infante com os dias deixou de engatinhar, passou a caminhar, sempre se alimentando do leite de Ariel, e num prazo de quase dois meses atingira a cintura de Prospero. Miranda, que ignorara a origem daquele milagroso rebento2, afeiçoou-se para o horror do pai. Os dois brincavam pelas galerias, pela floresta e pela praia como irmãos.

Miranda e Caliban.

O tempo rendeu ao híbrido de carne e espírito um corpo adulto em menos de um ano. Era um gigante de cor de giz, maior que Prospero. Já não tocava a terra flutuava. Consultava a infinita biblioteca de Sycorax. Logo já lia, flutuando a um metro do chão, sentado em posição de lótus, com tomos papiros e instrumentos místicos orbitando ao redor de si, como se ele fosse o Rei Sol com seus planetas.

Já desconfiado daquele ser que o olhava de cima para baixo, temeu quando vislumbrou que com pouco estudo e concentração executava façanhas místicas com as quais titubeava havia anos.

Esse bruxo, Caliban, que era mais forte do que ele, fiel a ninguém talvez só a Ariel, seria uma ameaça ao mago qualquer dia, melhor prevenir um motim.

Prospero aproveitou a concentração de Caliban ao compor uma poça em pleno ar. A criatura branca na necessitava de frascos, pois já ordenava a matéria que flutuasse no éter e se misturasse, aproximou-se sorrateiro e o golpeou com o bastão. O corpo esguio precipitou-se no chão liso num baque que ecoou pelas arcadas até Ariel, o qual abandonou seus rituais e veio num sopro veloz e se materializou mulher entre seu senhor e sua cria.

_Mestre! Por que ataca a cria de Ariel?

_Saia, duende!

_O mestre prometeu poupar Ariel e a cria.

_Cobra de mim algum dever, coisa mentirosa?

_Relembro a promessa.

_Esse monstro é mais forte do que eu.

Ariel sorriu e aninhou seu filhote.

_Mas o senhor abateu apenas num golpe! O meu pequeno Caliban é tão pequeno. Um fracote.

_Não me logre. Ele já é um mago mais competente do que e nem tem um anoviido. Logo, ele me escravizará.

_Não! Prometo-te. Caliban não atentará contra o senhor. O farei adoecer, colocarei grilhões em sua mente e corpo, será menor, torto, tolo, obtuso. Um idiota. Correrá pelas praias e florestas como um animal. Miranda terá horror a ele. Não será capaz de praticar nenhuma arte. Até sua grandeza sair dessa ilha e retornar ao que é seu.

_E depois?

_Depois ele será como era, pois a natureza sempre retoma o que foi tirado.

_Mas ele ainda será poderoso. Poderá me perseguir além dos mares, como tu persegues aos meus inimigos. E como sua gente vive mais que os mortais toda a minha semente estaria ameaçada.

_Eu o prenderei a essa ilha de modo que ele nunca poderá se privar dela. O senhor pode afundar os livros, privando-o de mais conhecimento, de poder.

Enfim, mais uma vez, o cajado é abaixado.

_Isso parece bom.

_No entanto, eu peço ao senhor quando tudo estiver feito, seu reino recuperado e meu filho preso, que esse espírito seja libertado.

_Sabia, não te contentas com pouco ser, malicioso?

_Mestre, minha cria há de me destruir ou me prender. O senhor não deseja punir os que lhe baniram? E o senhor tem uma alma. O que maldade se esperará de quem tem meia alma somente?

_…que seja!

Miasmas brancos envolveram o desacordado Caliban e retiraram toda sua glória, reduzindo ao que foi prometido um idiota de pele rançosa, escura, não de damasco, mas de frutas podres. Bem a contento de Prospero. Tal transformação, tal redução de um ser superior para sua carcaça seca, escura e amarga, não é processo que se faz sem a mais cortante dor.

Os gritos de Caliban tomaram a câmara compacta. Devassaram as arcadas e abalaram a santidade das paredes brancas, fazendo manchas cinza brotarem em cantos de onde o eco reverbera. Prospero, por mais que sua mente de ciência quisesse observar a cruel operação, ficou a selar os ouvidos de Miranda, para que ela não fosse exposta a tal carnificina.

Mesmo a repugnância, o ódio e o temor por aquela criatura gerada pela violação de sua filha, não pode impedir de suas órbitas umedecerem e ele verter lágrimas de compaixão e culpa por essa deformação da natureza.

Caliban amanheceu na praia com nova memória e nova vida.

A nova infeliz vida.

Ele acordou e urrou. Levantou-se e saiu a chamar por seu mestre:

_Meu Senhor, Prospero! Estou aqui para servi-lo

Graças Ariel, os perpetradores do golpe no Ducado de Milão contra Próspero são arrancados de seu destino e levados navegar e ao largo da Ilha. Ariel informou Próspero que o chamado aos seus inimigos enfim surtiu efeito. O mago ergueu seu cajado. O ato comanda uma tempestade cuja fúria encalhou e aniquilou a nau.

Ninguém que interessava se afogou. Sob o comando de Próspero, Ariel salvou e dispersou os sobreviventes em diferentes locais na Ilha. Finalmente, Prospero teve um brinquedo nas mãos. Poderia fulminar o corpo, mas o espírito é alvo mais delicioso.

Rei Alonso certo de que o seu filho Ferdinand se afogou entregou-se aos lamentos do velho sem esperança. Ferdinand também está convencido da morte do pai. Próspero e Ariel titeteiaram os movimentos dos conspiradores. As cordas puxadas esticaram as almas da marionete ao paço da loucura.

Enquanto torturaram os malignos, Prospero tratou do futuro de sua filha. Uniu Ferdinand e Miranda, num cadeado de paixão. Impossível desatar sem conhecer as contramedidas místicas ou sem a intervenção divina de deuses de panteões sucateados e abandonados por nações tragadas por cataclismos, de onde as rimas de amarração amorosas foram escritas.

Os culposos arrependeram-se dos seus pecados contra Prospero, mas este apenas lhe perdoa se jurarem serventia, deles e suas famílias, para ele e seus descendentes. Juraram. Comem, então, um pãozinho sem fermento, mergulhado no sangue do mago e se ligando a ele pela eternidade3.

Satisfeito, o mago ordenou ao espírito para recuperar o navio. Todos sobem a bordo a Ilha para retornar a Milão onde Prospero tomara para si o Ducado e verá, um dia, seu sangue mais tarde tomar Nápoles.

Com embarcação deixando o lugar do desterro, o Mago convoca Ariel pela última vez.

_Caliban está preso à ilha?

_Atado, amarrado, nunca a deixará nem mesmo para salvar a vida.

_Pois afunde meus livros e liberte-o da forma que prendeste. Basta apenas uma Prisão.

O espírito correu. Girou. Uivou. O mar se levantou e tomou parte da ilha. De maneira, não natural e ilógica cobriu a colina da câmara compacta. A entrada da caverna estava perdida. Assim, como os livros. Afundados. E pôde ser, então, o Duende libertado.

Caliban em seu próprio verbo:

Finalmente, tudo tão claro e tão certo, agora, pode ver o que estava errado. E como a planta escapando da semente, a águia ou a serpente do ovo, a pele escura que o prende descasca e a pele de giz se liberta em braços e pernas longas.

Caliban não anda mais, pois, se lembra como voar.

E como blasfemar!

Pela violação que sofrera!

_Prospero antes estava errado. Não faria nada contra ele ou sua gente, mas agora está certo. Eu os perseguirei e os atormentarei até que essa pústula de loucura que me carcome se cure e eu me liberte!

Sabia muito esse verdadeiro Caliban, detinha a ciência exata de que Ariel o prendera em espírito nessa ilha e que encantara essa águas para que nenhuma embarcação viesse atracar aqui por acaso. Preso e sem conhecimentos, sem instrumentos, a vida e a vingança seriam de difícil alvitre.

Ou não?

Flutua até a área da ilha submersa.

Reflete sobre a entrada da câmara compacta algumas horas.

Mergulha na água do mar para validar ou anular uma idéia.

Nada como se o ato lhe fosse natural e toma a entrada.

Atravessa e confirma.

Sim é válida!

A câmara compacta não permite a entrada de qualquer coisa que ameace a integridade intestina.

Ariel, espectro travesso, bem sabia. E assim fez.

Prontamente, como se nunca deixara de fazer, flutua em lótus com livros a lhe circundar.

_ Hummm

Conforme uma enciclopédia sobre fauna e flora da sobrenatureza, a espécie de seu criador, Ariel, sobrevive em média dez milênios. Não está registrado muito sobre híbridos desta com mortais. Mas é comum que os híbridos de outros espíritos, espectros e aparições em geral, tenderem a superar os pais em muitas qualidades.

Sorri intrigado Caliban.

_Quanto tempo terei para perseguir Prospero e sua semente sobre a Terra?

Paciente, continua sua consulta.

1. Aviso: Sabe-se que estas páginas do Manual de Destino não são imutáveis quando escritas, apesar de não poderem ser alteradas por mão mortais ou não, portanto não são aceitas como provas judiciais neste ou em qualquer mundo ou esfera. As alterações são aleatórias e não apresentam causa ou significado, invocando a teoria que como as nossas escolhas alteram o que virá, criando bifurcações de futuros possíveis, elas alteram o passado falsamente cristalizado, forjando bifurcações decrescentes de histórias prováveis que se cruzam e se atualizam em nosso presente. Um exemplo, é o caso de um dentista na Itália que anos após enterrar sua esposa e anunciar o noivado com uma pretendente, reencontrou-a viva em casa, envelhecida, reclamando das notas escolares do filho que nunca tiveram. Aturdido, correu ao cemitério e constato que o tumulo ainda permanecia intocável assim como ocupado pelo corpo daquela que o recebeu em casa. Um teste de DNA verificou que a dona de casa viva e os restos mortais eram a mesma pessoa. Atualmente, o caso passa por uma severa comissão jurídica acostumada a lidar com anedotas da realidade.

2. A extração de memória é encanto fácil, porém, perigoso. Algumas vezes, geram passados inexatos e diferentes na cabeça do que foi extraído e o universo distraído altera a linha anterior até então. Por exemplo, em 1903 um engenheiro francês, pacífico católico conservador, de discretas tendências monarquistas, que passou por esse processo, foi interrogado brutalmente pela polícia de Paris devido ao seu passado como salteador e criminoso furtivo do bando de ladrões anarquistas Trabalhadores da noite. Salvo de sua cela na noite posterior a tortura por antigos membros de sua falange foi forçado a participar de um último assalto pelos velhos tempos. Viu-se invadindo seu próprio lar, onde se deparou consigo mesmo na cama com sua obesa mulher. Como sou enfadonho! Constatou.

3. Dessa ligação mágica de sangue, cria-se a primeira organização familiar da Itália. Um estado além dos Estados, dedicado ao acúmulo de poder dos descendem de prósperos e aliados. E fato que a eles se devem cinco papas de prestígio e que o poderio de Mussolini viu-se comprometido a partir de desavenças num jantar. Também é atribuído o sucesso das brigadas vermelhas ao de uma militante ser de sangue puro da linhagem de Prospero.

16/11/2008

ESTUDO SOBRE FIGURA HUMANA
Rodrigo Motta

Carvão sobre Papel

15/11/2008

SOBRE OS NOVOS OU SOBRE A ARTE
Rei I

Sempre usando as mesmas roupas, encardidas e rotas, surgia Romildo na porta da firma para o trabalho. Todos os dias na entrada os funcionários mais velhos de casa se agrupavam para falar de vários assuntos - a maioria dos assuntos não se aproveitava. Romildo se aproximava do grupo e ficava observando a conversa. De repente entrava no assunto e nada de construtivo dizia. Nesses instantes ele conseguia ser bastante engraçado. O pessoal gostava dele. Admito a impossibilidade de não simpatizar-se com ele; eu mesmo, vez ou outra encostava ali perto e esperava pelas suas tiradas, buscando alguma distração antes da mecanicidade do trabalho. Parecia aquilo um dom: o dom de saber como ninguém ser engraçado nalgo que aparentemente não daria mais a mínima brecha para graça alguma.

Havia no seu olhar desleixo e descaso com tudo que o cercava. Tinha vindo de outro estado apenas pelo trabalho e vivia repetindo que tinha saudade da sua terra e que hora ou outra partiria de vez daquele “inferno”. Não ligava realmente para nada. Não tinha namorada. Não que alguém soubesse. Mas boatos vários diziam que ele era dos que, por debaixo dos panos, se esbaldava em aventuras perigosas. Em suma: Romildo era um homem maduro - e largado, que parecia livre e pronto para seguir a enxurrada. Acho que isso despertava o imaginário dos outros que eram casados e levam uma vida mais regular.

Certo dia, porém, surge Romildo diante dos colegas na entrada da empresa, com um violão na mão e diz:

“Ei macacada!!! Olhe só o que ganhei!!!”.

O pessoal sorri e rebatem quase ao mesmo tempo:

“Hahaha vai maltratar quem com essa arma?”.

“Ih menino, cresci com um desses na minha terra!” responde.

“Tu é filho do homem que mexe com pau?” disse um engraçadinho, e todos sorriram profusamente.

Romildo nem levou em consideração. Sentou na cadeira onde o porteiro descansava e pôs-se a tocar o violão. Eu estava no grupo e lhes digo, caso não tivesse visto não acreditaria. Romildo tocava o instrumento com tanta habilidade, graça e talento que parecia ele um daqueles profissionais que passam na televisão tocando em apresentações jazzísticas. Durou pouco.

Ele parou de tocar.

“Vamo macacada, olha a hora!”.

Andei pensando e relembrando tais coisas hoje. Como faz tempo, meu Deus…

O Romildo nem se deu conta de como nós ficamos sobressaltados com todo seu talento; de como ficamos pasmos observando ele sumir na direção da oficina; de como trabalhou por todo aquele dia com a mesma indiferença dos dias anteriores. Lembro ainda que no dia seguinte lá estava o grupo na entrada e o Romildo nele, dessa vez sem violão. Eu passei direto. Nem me aproximei. E assim fiz até o dia que pedi demissão daquele serviço. Naquela época lembro que, eu, novo e cheio de sonhos novos e imaturos, considerei o Romildo uma pessoa imensamente talentosa; no entanto o puni por desperdiçar a si e a esse talento, desprezando as possibilidades gigantescas e reais de mudança que esses talentos podem causar, uma vez bem empregado em outro lugar.

Não sei precisar bem esse sentimento hoje.

O que sei é que depois de tantos anos percebo o quanto eu poderia ter aprendido com aquele homem e a sua indiferença e desleixo para com tudo.

É… Andei pensando e relembrando tais coisas hoje. Deve ser outra armadilha da idade…

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