A vida não se resume em festivais
Publicado originalmente em 3/12/09 no Blog Arlequinal
Nas últimas semanas aconteceram uma série de lançamentos e mesas literárias em São Paulo. Imagino que, com a aproximação do natal, os autores devam apressar suas editoras para realizar o lançamento de seus livros. Assim, tomando muito vinho branco nacional (de melhor ou pior qualidade, dependendo da livraria), às vezes comendo alguns canapés e ouvindo as mesmas conversas. A literatura marginal, o cânone, os autores fantásticos, ou seja, todos praticam o esporte preferido, bater nos vampiros mórmons do Crepusculo, Lua Nova e livros afins (sobre os quais desconheço uma sílaba escrita).
Ultimamente eu chego em casa e tento diminuir a famosa fila de livros e estou me perguntando: quantas pessoas estão fazendo o mesmo? A minha impressão é que desses lançamentos, mesas literárias encontro de autores sai muito pouco. Os autores leem os autores, alguns arroz de festa compram os livros e nem todos leem o que compram, os parentes colocam em local de destaque sem sequer romper uma vez a lombada.
Resta o fetiche do livro e o culto da personalidade do autor. A Catedral está ali na avenida paulista, em um antigo cinema, como atesta José Saramago. O livro voltou a ser objeto de ostentação e status. Alguém me disse que o escritor é o novo rockstar. Nunca se vendeu tanto livro no Brasil, mas se lê mais que há dez anos? Os mesmos livros estão nas mesmas posições de mais vendidos desde… nossa nem me lembro mais. Ninguem empresta mais um livro para um amigo? E cada vez menos vejo esses fenômenos literários em sebos (quem já está aproximando dos 30 como eu, ou é mais velho, lembra da invasão de exemplares de Cavalo de Troia e Brumas de Avalon nos sebos na década de 90).
Eu começo a ficar desconfiado que alguma coisa está muito errada. Pouco a pouco vejo com bons olhos o advento do livro eletrônico. Quando houver um aparelho acessível ao consumidor geral, que custe o mesmo que um mp3player ou um celular, o custo benefício pode ajudar a literatura. Penso que as pessoas comprarão livros que realmente pretendem ler e que não fiquem apenas “bonitos na estante”. Com isso, talvez o escritor vá a eventos para falar de literatura e não cultuar sua personalidade.
Lembro-me de assistir o video de Geraldo Vandré, tentando cantar sua “Para não dizer que não falei das flores” ao final de um festival. Diante da derrota para “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, a massa entrou em um surto coletivo e gritava “marmelada, marmelada”. Vandré, antes de cantar, grita ao microfone: a vida não se resume em festivais! A música dizia de algo mais importante que acontecia fora das paredes daquele ginásio: a vida. Está na hora do conteúdo dos livros ser mais importante que seus lançamentos, colunas sociais, vinhos nacionais e estantes da sala.
