Orelha de “Estudos sobre a Leveza”
Por Eric Novelo:
Eu e Fernando Torres estávamos no bar trocando idéias sobre utopias, quando de sobrancelha erguida ele me perguntou: Eric, eu escrevo literatura realista? Claro que sim, respondi na hora, sem titubear. Fronteira de gêneros é comigo mesmo. Mas no meu livro tem um hipopótamo que fala, disse ele, derrubando minha certeza. Pensei em argumentar que o hipopótamo de Elogio à Fábula era tímido demais, talvez surtisse efeito, mas antes que eu pudesse organizar os pensamentos, Fernando me perguntou da formiga, que mais tarde fui lembrar, desfrutando de nova intimidade com o texto, se chamava Tainá. Dentro do formigueiro, tinha uma função a cumprir, ela debaixo da terra com sua folha nas costas, nós acima dela carregando pastas, correndo para não perder o ônibus, ajeitando o nó da gravata. Talvez o psiquiatra dobrasse meus remédios se me ouvisse falar isso, mas senti ali, naquela mesa de bar, que eu e Tainá tínhamos muito em comum, mais ainda do que eu dividia com o hipopótamo. Que cá entre nós, não fala nada. Bati na lona com prazer, ciente de que um bom texto não aceita rótulos, e passamos para o próximo tópico da conversa.
Os 22 contos de Estudos sobre a Leveza são feitos da matéria abstrata que se encontra no campo das idéias, daquela que escapa pelos dedos se apertarmos demais. São moldados pelas intempéries do cotidiano, juntando forma e conteúdo de modo que o leitor possa deslizar pelas entrelinhas, encontrando diferentes reflexos de si no que está retratado. Pode ser o som de um saxofone, uma lambida no sorvete, cineastas sem dinheiro como eu, a incerteza de um sonho, detalhes que facilmente encontram eco no leitor, e que aqui adquirem amplitude, sempre com as portas abertas para um novo significado.
Fernando Torres sabe que a boa literatura não impõe, ela agrega, vai se compondo de cada olhar que a destrinchar no decorrer de sua existência, fatia por fatia. Então não estranhe se a leitura passar num piscar de olhos e fluir com pura leveza. É esse o objetivo! No final de tudo, rótulos diluídos, é a qualidade do traço que faz a diferença, seja no contorno de um hipopótamo ou na trilha de uma formiguinha.

Er.. Realismo simbólico? Simbolismo realista? Literatura metafórica? Fábulas da modernidade? Ora… “um bom texto não aceita rótulos”, talvez porque rótulos limitam o alcance e um bom texto expande nossas mentes a cada vez que o relemos. Ótima resenha, Eric! E parabéns pelo livro já no prelo, Fer! Sucesso a todos.
Instigante mensagem narrativa na orelha desperta maior ansiedade à leitura do livro. Desejo sucesso ao Fernando.Glória
Queridas Camila e Glória, Agradeço muito as palavras de incentivo.
[...] livro de contos está aprovado (leia a orelha aqui), ainda não foi fechado data e local de lançamento porém, e como a primeira tiragem é [...]