Eu sei que vai dar polêmica

Friday, March 20, 2009
By Fernando de Freitas Leitão Torres

Escrevo esse post, a partir de uma discução que surgiu nos comentártio deste post, no blog do Sérgio Rodrigues.

Antes de mais nada: Não existe literatura gay. Não existe tampouco uma literatura feminina. Literatura negra. Existe sim Literatura boa, ruim, divertida, tediosa. E não necessáriamente a literatura boa será divertida e a ruim tediosa.

Um livro não tem orientação sexual, seus autores podem ter, mas isso não impede que eles escrevam histórias universais (e boas), sendo seu seu personagem gay ou heterosexual. Aliás, livros que foram escritos com o idéia de ter a mesma qualidade que um humano, são, em geral (cabem exceções) muito ruins, sendo panfletos didáticos político partidários de um movimento, e portanto valendo mais ao estudo sociológico (ou antropológico) do que literário.

Em regra (mais uma vez cabendo exceções), livros escritos por autores pertencentes a um movimento político (seja ele étnico, partidário, ideológico, ou qualquer movimento em prol de uma classe) e que na época tiveram destaque dentro daqueles círculos por serem engajados, foram fadados ao esquecimento. Por outro lado, muitos livros que foram rejeitado pelos movimentos que o autor pertencia, ou perseguidos por patrulhas ideológicas (sendo elas detentoras ou não do poder político), se tornaram referência dentro do estudo da literatura. Exemplos não faltam: Elio Vittorini, Jorge Amado, Machado de Assis, só para citar alguns.

Isso se dá por que todo movimento político (revolucionário ou não, de direita, esquerda, centro, em prol das maiorias, das minorias) independente da causa que defende, têm dentro de sí a semente reacionária. De combater a tudo e a todos que o contrapões. Ou alguem realmente acredida que o princpio liberal de “defender o direito de me contrapor” não passa de uma hipocrisia prepotente e construída em cima de uma falácia? Não? Se eu tenho direito de acreditar em tudo que eu quiser, por que me é vedado o direito de lutar verdadeiramente por isso? Ou de aplicar o que eu acredito em prática do cotidiano? Afinal, usando um exemplo didático sem reflexo na minha opinião pessoal, alguem pode ser a favor da pena de morte, mas não poderá jamais aplicá-la, sem que seja considerado tão criminoso quanto o “aplicado”. É mera superioridade retórica que ajuda a vencer um debate sem entrar no mérito das propostas práticas.

Dizer por sua vez, “Retrato de Dorian Gray” é um romance gay, é um reducionismo cavalar. Tal Livro trata sobre o narcisismo e a vaidade (já tratado na Bíblia e em muitos mitos ocidentais primitivos que conheço), qualidades que atinge homens e mulheres (ou seja todo o gênero humano) independente de orientação sexual ou política. O livro trata de uma qualidade humana e a vida pessoal/amorosa de seu autor não o faz ser um documento sociológico sobre o homossexualismo.

Por outro lado, a obra prima de Maquiavel “O Principe” é uma obra política comparável  à “República” de Platão, em sua importância. Talvez seja o obra política de maior impacto e reflexo na história moderna depois das Obras de Marx (Karl, não o Groucho). A leitura atenta, demonstra muito mais que os preconceitos ideológicos históricos que marcaram a obra. É um manual, não do absolutismo, mas sobre o gênero humano. Lá está escrito que nenhum governante permanecerá no poder apenas por “berço”, mas que deve ter méritos, e méritos implicam em agradar o povo (nada do que fazemos tem sentido se os homens não puderem ser felizes – Elio Vittorini). Que o ideal é que um governate deve ser amado e temido, mas para a manutenção do poder é mais prático ser temido, mas que por outro lado ser temido pode levar à insatisfação do cidadão, e isto à substituição do governante. O livro em sí, permanece não pela ideologia que ele representou na época, mas por ser uma obra essencial, universal, que deve ser lida (atentamente e criteriosamente) por qualquer um que pretenda realizar algum estudo sobre política. Quantas obras foram escritas justificando a ideologia vigente à época? Quantas realmente permaneceram?

Antes de ler um livro, talvez devessemos nos preocupar menos no que ele representa às ideologias, mas o que ele representa sobre o humano. Houve um tempo que a Ciência Lombrosiana (e seus supostos métodos científicos e portanto supostamente neutros) escancarou a impossibilidade do humano ser neutro em seus estudos, mas, na época, as ideologias apontaram na suposta neutralidade e cientificidade exatamente o que ela precisavam para realizar seus atos hediondosamente humanos.

A pergunta, afinal deve ser, o que isso reflete do autor, mas o que isso reflete de mim? O que esse livro me aproxima de outro humano? Por que esse reflexo me instiga a afastar ou me aproximar do que está escrito? A boa literatura é aquela que você pode ver o que existe mais humano em você e te puxa a refletir sobre isto.

5 Responses to “Eu sei que vai dar polêmica”

  1. rei

    bastante lúcida suas palavras, seus pensamentos, e como rebateu uma idéia errônea que nos tempos de hoje se encontra em vários lúgares.

    #123
  2. Brecht, Blitsztein, Orson Welles, George Grosz, Mayakovski, George Orwell, Tina Modotti, entre outros contrariam o que vc disse sobre serem fadados ao esquecimento, não acho que seja exceção, uma parte considerável de grandes artistas do século XX era (ou se dizia) ativamente política e engajada. Esses eram todos ligados a partidos comunistas (menos Blitszteins, que era homossexual, portanto não fazia parte oficialmente, mas era da turma).

    E acredito que os homens não serão felizes enquanto estiverem passando fome ou sendo exterminados por alguns que se dizem mais genero humano do que outros…

    Talvez justamente por esse extermínio, alguns artistas simplesmente não sejam aceitos e fadados ao porão do esquecimento, pela sua arte considerada “degenerada” pela ideologia dominante. É assim que o mercado artístico (plástico, cênico, cinematográfico, literário, etc) sempre funcionou e continua funcionando, sob a égide do fetiche da mercadoria, mantendo cânones de formalismo e individualismo e dentruindo arte que por ventura possa causar (real) desconforto àqueles que detém os meios de produção.

    #124
  3. Engraçado que nunca li Dorian Gray como literatura gay. E olha que eu teria uma tendência natural a fazer isso. rs. Se os rótulos impostos por autores e críticos não fazem sentido, me ponho no lugar das livrarias. Como organizar aquilo tudo? Nacionais, estrangeiros, terror… Abss!

    #125
  4. Fernanda: Orwel e Mayakovski tão somente afirmam o que tratei. ambos autores São autores que desafiaram os modelos “do partido” para criarem suas obras. Orwell, escreveu em sua história alegorica não apenas uma fábula política alinhada com à crítica a uma situação de fato, mas explorou profundamente anseios que movem o ser humano. Quem negar isso não entendeu absolutamente nada da obra dele. A arte de reação, embora muito mercantilizada costuma ser fadada ao esquecimento, por (em geral) ser vazia. Assim como grande parte dos poetas parnasianos brasileiros.

    Eric: Eu não consigo me imaginar numa livraria dizendo: “hoje eu quero um romance marxista leninista, mas sem influencias do maoísmo, por favor, sabe, eles tem o péssimo habito de se jogarem numa fogueira”. O fato é que livros não são pessoas, um livro não é marxista, negro, gay, nordestino… seus autores são ou não essas coisas, suas histórias tratam ou não disso, mas o livro é um amontoado de papel com palavras impressas, e o que faremos com ele é a unica coisa que importa.

    #126
  5. Ótimo texto, Fernando, além de bastante oportuno.

    A meu ver, rótulos só são indispensáveis em embalagem de alimento. Para literatura, são um desserviço – muito embora possam servir como estratégia de marketing.

    Agora, literatura política, racial, de classe, sexista etc. – todas essas subcategorias me parecem contribuir para desviar a atenção do leitor / consumidor do que é realmente importante: se o texto é bom ou ruim.

    Ademais, o bom leitor percebe de saída quando um livro serve apenas de veículo para o proselitismo do autor. E isso compromete um texto, por melhor que ele seja. Literatura deve sim suscitar debates, paixões, questionar tabus, preconceitos, mas não ser uma mera vitrine panfletária.

    Esse tipo de literatura pré-rotulada não me interessa.

    Abraço.

    #127

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