Quando a ficção invade a realidade

Monday, February 9, 2009
By Fernando de Freitas Leitão Torres

Em janeiro eu publiquei no Novas Visões o conto “O Corpo” (para ler clique aqui) que causou um certo incomodo para uma série de pessoas. Alguns compararam o texto com o clássico de Dalton Trevisan “Uma vela para Dário” (não me lembro exatamento livro).

O fato é que hoje a realidade imitou a ficção. Hoje, na frente de minha garagem tombou um catador de papel de uma cooperativa do bairro. Não tombou de morte, mas de bêbado e alí ficou sangrando da pancada que tomou do chão. Rapidamente moradores da rua chamaram o socorro, evitaram o tumulto e depois de alguns minutos o resgate foi feito.

Não vou apontar dedos para o rapaz que passou ao lado do corpo caído na saída da garagem. Como não vou apontar o dedo paras centenas de motoristas que passaram pela rua, viram o senhor no chão e ignoraram. Mas nessas horas que meu materialismo histórico não me basta. Toda minha ideologia e coerência não me basta. algo em mim chora, algo em mim se revolta. No fundo quero pegar o mundo no colo e mostrá-lo o caminho. Não, não! Eu seria um ditador! Quem sou eu para dizer ao mundo o que é bom? Que fardo (e fado) é esse que urge? Cuidar do mundo é impossível, não posso ser arrogante a esse ponto. Não a esse ponto.

Penso em Drummond: (mundo mundo vasto mundo) e me volta a imagem do corpo inerte (se eu me chamasse Raimundo), qual será o nome daquele senhor, alí caído de bêbado (isso seria uma rima, não seria uma solução)?, será que ele vai ficar bem (mundo, mundo vasto mundo)?, será que ficar bem é uma possibilidade que se aplica a alguem na condição dele (mais vasto é meu coração)?, sofro ao vir de um colega que aparece que aquele senhor é alcolatra e dá muito trabalho aos colegas de coperativa (ó Deus por que me abandonaste!), e quero mais uma vez pegar o mundo no colo (se sabia que eu não era Deus) e sei que não posso e preciso pelo menos cuidar de mim (se sabia que eu era fraco!).

E penso em Bandeira (aquele bicho, meu Deus! era um homem).

A situação assusta, se por um lado a realidade ainda é dura, quando ela imita a ficção sentimos a inversão indevida da ordem das coisas. Senti-me como a escritora que encontra seu personagem que está para ser assassinado por ela em suas páginas no Filme “Mais Estranho que a Ficção”.

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3 Responses to “Quando a ficção invade a realidade”

  1. Às vezes a realidade bate na nossa porta de um jeito bem cruel…

    Sempre penso nisso, afinal eu busco muito essa realidade pra poder bater na porta das pessoas e cutucá-las (e me incluo nisso)

    Pensar nisso é angustiante…

    #98
  2. “aquele bicho, meu Deus! era um homem”

    Assim como também era o bicho que apontou o dedo e o bicho que pediu ajuda.

    Somos todos bichos neste mundo. Só que achamos que somos mais que isso… ai ja viu no que deu.

    Não acho que sou melhor ou pior que a pessoa que não fez nada ou que pediu ajuda.

    #99
  3. Hmmm, Guslinger…

    Acho que ainda talvez sejamos pior do que bichos… Temos consciência (entre muitas aspas) dessas coisas que fezemos…

    =/

    #106

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