SOBRE GRAMÁTICOS E REVISORES
por Rubem Alves
Os gramáticos são entidades dotadas de um grande poder. Eles tem o poder para baixar leis sobre como as palavras devem ser escritas e sobre como elas devem ser ajuntadas. Seu poder vai ao ponto de poderem estabelecer que uma certa palavra existe ou que tal palavra não existe. Quando a dita palavra aparece num texto eles a desrealizam por meio de uma palavra latina “deleatur”, afirmando que se trata de um simples fantasma. Foi o que aconteceu com a palavra “estória”. Atreva-se a escrevê-la! Os “revisores”, policiais da língua que cumprem as ordens dos gramáticos, logo a transformam em “história”, assumindo que o escritor a escreveu por ignorar que ela foi a óbito.
Os revisores são seres obedientes: cumprem e fazem cumprir as leis ditadas pelos gramáticos. Saramago descreve a sua condição como seres “ atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais severas que um código penal”. Olhos de falcão, tem de estar atentos aos mínimos detalhes. Sua concentração nos detalhes é de tal ordem que, por vezes o sentido do texto, aquilo que o escritor está dizendo, lhes escapa.
Aconteceu comigo. Escrevi um livro O poeta, o guerreiro, o profeta. O argumento se construía precisamente sobre a diferença entre “estória” e “história”. Num capítulo era “estória”. No outro era “história”. Se ele, o revisor, tivesse prestado atenção naquilo que eu estava dizendo ele teria notado que o aparecimento alternativo de “estória” e “história” não podia ser acidental. Mas ele, obediente às leis dos gramáticos, transformou todos os “estórias” em “história”, tornando o meu livro gramaticalmente correto e literariamente em “non-sense”.
Numa outra ocasião o revisor enquadrou na reforma ortográfica uma fala do Riobaldo, que eu citava. Ficou divertido ler Riobaldo, jagunço de muitas mortes, contando seus casos com fala de professora primária.
Saramago tem medo dos revisores. Não permite que eles metam o bedelho nos seus livros para enquadrá-los às regras da gramática. Desprezando vírgulas e pontos ele vai em frente consciente de que seus leitores são suficientemente inteligentes para colocar as virgulas e os pontos nos lugares que sua respiração e o sentido determinarem.
Mas o escritor português sabe que os revisores são pessoas que sofrem. Deve ser terrível viver o tempo todo sob a tirania das leis dos gramáticos e sob a tirania do texto do autor a que eles tem de se submeter, sem dar sua contribuição pessoal. Afinal de contas o revisor não gosta de ser revisor. Ele queria mesmo é ser escritor.
Compadecido do sofrimento dos revisores Saramago escreveu o livro História do cerco de Lisboa . Pois nesse caso o revisor do dito livro que, se não me engano, se chamava Raimundo Silva, se rebelou contra o seu destino e resolveu fazer história. No lugar onde o autor escrevera que os portugueses foram ajudados pelos cruzados, Raimundo Silva inseriu um “não” entre os “portugueses” e o “foram” o texto ficou “e os portugueses não foram ajudados pelos cruzados…”
Assim, contrariamente ao que já disse, fico a pensar que talvez o poder dos revisores seja maior que o poder dos gramáticos: com uma única palavra eles podem mudar o mundo ou arruinar um livro…
(Agradecemos a gentileza do autor, que autorizou a publicação do texto em este blog. Agradecemos também ao leitor que indique este texto neste espaço ao invés de copiá-lo para seu próprio espaço)

Nem todo revisor não presta atenção no texto. Aliás, não se deve confiar num profissional que “lê no automático”. O revisor citado acima deve ser simplesmente ruim. E é muito fácil escrever sobre este lado da profissão, não? Ainda mais de uma que mexe com o ego do autor.
E dizer que revisor queria ser escritor é um grande absurdo. Uma falta de respeito também. Ninguém escolhe uma profissão dessa porque é incapaz de outra. “Revisor não gosta de ser revisor”? Tem gente com uma necessidade enorme de fazer uma bela pesquisa antes de falar uma besteira dessa. Deve ser ego ferido.
Renata,
Eu mesmo fui um revisor. Acho que foi melhor eu seguir meu rumo na advocacia e escrevendo eventualmente. Estudei Letras e muitos amigos meus têm essa profissão. Mais como leitor que como escritor eu posso dizer que existem algumas “manias’ de revisores que acabam deixando um texto muito inferior ao original. O ideal seria existir um diálogo entre o escritor e o revisor, uma relação de cumplicidade com o texto e seu estilo. Mas isso é utopia.
Antes que você jogue pedras em mim, esse texto foi publicado com autorização do Sr. Rubem Alves, escritor de longa data e colunista da Folha de São Paulo, dono de uma bibliografia respeitável. Eu concordo com muitas coisas que ele diz nesse texto. Acho que essa jocosidade “revisor não gosta de ser revisor” é, de longe, a parte mais desimportante do texto. Acho que a brincadeira dele é para espezinhar (nunca escrevi essa palavra antes) seus próprios revisores e editores.
Acho importante nós refletirmos também sobre o significado político desta reforma, que para mim é um crime contra a soberania cultural de cada um dos países lusófonos. Repito desde que me deparei com a unificação gramatical: a língua é um patrimônio do povo que a fala, um fenômeno vivo, em mutação, é contrário à idéia (sim com acento!) de diversidade cultural. A únificação, em ultima anaálise nos leva ao Galego-Português, na unificação da lingua ibérica e ao Latim se resolvermos unificar a Europa.
Abraços,
Fernando
Eu entendo o que você diz, Fernando, mas não posso concordar com o que o Rubem Alves escreveu, mesmo ele sendo quem é. Não dá para generalizar uma profissão baseado em um infeliz profissional que não soube ser ético. Foi convivendo com revisores que mais aprendi sobre ética, por isso acho anti-ético da parte dele escrever algo assim. Insisto em ego ferido, mas eu entendo que um escritor tem o direito de se sentir assim se tem a má sorte de ser revisado por um incompetente. Acontece muito, admito.
Mas a ausência de contato é mais culpa das editoras do que falta de vontade entre revisores e escritores mesmo. São raríssimos os casos em que existe, muito raros mesmo. Eu mesma só tive contato quando revisei livros de pessoas conhecidas minhas. Em editoras, isso está praticamente fora de cogitação, o que é um grande erro.
E acho que isso acaba dando uma liberdade que o revisor não deveria sentir. A regra mais importante que um revisor deve seguir é reconhecer o estilo do autor do texto (isso eu falo mais sobre texto literário, com um revisor que trabalha com publicidade a coisa é diferente). Uma vez feito isso, absurdos como o citado pelo Rubem Alves têm mínimas chances de acontecer. Mas vai ver é minha utopia também. Que um dia todos percebam a importância da revisão. E o pior é que eu sei que esse dia não vai chegar.
Sobre o Acordo, concordo plenamente com o que você disse. Esses dias publiquei mais uma opinião no meu blog, mas talvez tenha sido a última, já que o povo gosta de criticar quem é contra a essa reforma inútil. Deveríamos refletir mais sobre isso, sim, sem dúvida. Mas o texto é sobre os revisores e é um texto extremamente injusto.
Peço desculpas pela minha reação um pouco nervosinha hehe, mas não posso retirar ou mudar o que eu disse. Obrigada mesmo pela atenção e continue publicando os textos, gosto muito e leio sempre.
Abraços!
Fernando, no meu blogue comentei sobre o livro “Gilgamesh – o primeiro herói mitológico”, que, embora datado de 2008, já veio com a örthographïa de 2009, chêya dessssas consoäntes dobradas e pôwkos acêntos. No final, porém, o revisor deixou escapar um horrrrendo “antes dela houveram outras três.” . Que maravilha! A cada dia ouço mais essa coisa incrível de que Há ganha plural no pretérito. Isso, porém, os revisores são incapazes de perceber, pois certamente eles também estão envoltos nas trevas dos errrrros.
Boppe, qual a editora do livro? Se um tempo para cá eu tenho tomado muito cuidado quando escolho um livro e a editora cada vez mais é uma referência. É interessante como uma tradução pode estragar um texto e você entender exatamente o motivo de um erro gramatical (ou vários). Brumas de Avalon é um exemplo gritante disso. A tradução é mal feita e a revisão quase inexistente (não é do meu escopo entrar no mérito dess obra). Por outro lado existem traduções maestras, em que para o bom entendedor do inglês é possível identificar boas soluções para expressões idiomáticas quase intraduzíveis. Em geral isso acontece quando a equipe de tradutor e revisor trabalha em sintonia em uma boa editora. Um exemplo de excelente tradução, que costumo citar é “Bonequinha de Luxo” de T. Capote, traduzido por Samuel Titan Jr., Ed. Cia das Letras.
Na realidade, uma editora pequena não costuma ter um orçamento muito folgado para editar livros, estes acabam contratando estudantes de letras com pouco experiência para a revisão, que muitas vezes fazem o trabalho apenas pelo dinheiro sem se preocupar com a qualidade. O problema é ainda maior pois julgamos o livro pela sua apresentação material. Estamos na ditadura do papel polén de gramatura alta e das capas coloridas e artísticas. Ainda existe a ditadura do português acadêmico, hoje dificilmente Guimarães Rosa seria permitido narrar como narrava (e não estou falando de “Grande Sertão: Veredas”).
Eu reitero o que sempre falei. Minha ortografia está longe de ser perfeita. Porém, sou contra o significado político da reforma.
Fernando, a editora é a Artes e Ofícios Editora Ltda., de Porto Alegre, RS. A revisão coube a Renato Deitos, mas a capa, criada por Marco Cena, manteve a ortografia de 2008, tanto que nela ‘herói’ é acentuado.
Detalhe très important: não é uma tradução! Os autores Ademilson S. Franchini e Carmen Seganfredo são brasileiros, que se dedicam a recriar lendas de diferentes mitologias e a fazer traduções.
Quantas generalizações! Que falta de respeito com a profissão! Faltou dizer que o revisor, muitas vezes, pode salvar um texto ruim.
Olga
Boppë,
De acordo com a nova ortografia, o acento de herói foi mantido.
Mônica
Olga, concordo com você em um ponto. Muitos revisores salvam livros, principalmente quando são livros técnicos ou acadêmicos. Ainda acho que a revisão sobre a literatura é um desafio em especial e deve ser entregue a profissionais experientes e sérios. Nunca um post meu causou tanta comoção! Foi só eu colocar o texto de outro aqui, que todo mundo comentou!
Olga, concordo parcialmente, mas no caso do livro que comentei, Gilgamesh, ele já é ruim na própria escrita. Quanto ao erro de revisão de HOUVERAM é péssimo na indicação de “um certo grupo” universitário que gosta desse erro.
Mônica, pois é, mais uma razão para eu não querer aprender essa orthographia, já que heróico tem a mesma pronúncia e dele foi retirado o mesmo acento, apenas por ser paroxítono.
Por sua vez, eu gostaria muito que o Estadão recuperasse, ao menos, o corretor automático, para que eu não tivesse mais de encontrar muLÇUmanos na edição on-line do jornal. Já que eles consideram os copidesques desnecessários, que o computador faça então o que os focas não aprenderam na “facul”.
Bom dia,
Também li o texto de Rubem Alves sobre revisores. Achei incrível a forma como ele critica. Eu, sinceramente, tenho mais pudor em apontar quem é bom profissional de quem não é, quem é bom escritor de quem não é… imagine apontar que toda uma classe de profissionais é ruim. Isso é realmente muito sério. Ele, sendo um escritor tão famoso, poderia ser mais cuidadoso ao expressar uma opinião, até porque ele tem mais voz do que a classe que ele critica, então, deveria ser também mais reponsável e consciencioso. Grande poder, grande responsabilidade.
Perdoem-me os mornos, mas eu não gostei do texto dele. Considerei agressivo e nada vi de positivo. Se o objetivo dele era o de criticar a reforma ortográfica, sinto muito, mas falhou. Talvez ele devesse tentar re-escrever?
Bem, já trabalhei como revisora e hoje não tenho mais tempo para me dedicar 100% à revisão, mas não tenho críticas à classe. Não sou ingênua a ponto de achar que todos os revisores são bons profissionais. Afinal, existem profissionais ruins e medíocres em todas as profissões. Assim como existem revisores mal preparados, existem médicos mal preparados, existem escritores mal preparados etc. etc. E, aliás, se Rubem Alves lê esse blog, ele pode ficar aí com uma sugestão: exija a não-revisão de seu texto ou envie o texto para um revisor em quem você confie, é um direito seu, é uma escolha sua.
Abraço,
Érica
Érica,
Eu acho muito interessante como esse texto gerou controvérsia. Na realidade eu vejo como um texto para não ser levado à sério, com tom jocoso, de provocação entre amigos. Até por isso que pedi permissão e publiquei. Um texto que resgata o espírito da crônica.
Vivemos em tempos muito sérios, literais, ao pé da letra (sans serif não tem pé). Penso como seriam interpretados hoje grandes cronistas como Otto Lara Resende e Rubem Braga (que delícia as crônicas do Rubem Braga).
O que dizer sobre isso…
Bom, antes de tudo. O que esperar de um pseudointelectual?
Alguém que escreve centenas de livros dizendo, de maneiras diferentes, as mesmas coisas. E que, além disso, acredita, por pura inspiração da divindade, poder escrever sobre tudo.
Faça-me o favor!! Comparar-se a um Nobel de Literatura (perdão para os que não gostam de Saramago) escrevendo psicologismos e filosofismos baratos é uma afronta!
Pena que as pessoas consomem essa literatura fraca, acreditando investir numa conhecimento profundo. É comercial…
Podemos querer ser escritores, sim. Afinal de contas, temos capacidade técnica para isso. Mas nada tira o prazer de poder salvar o texto de muitos (pseudo) autores que têm simplesmente um nome, mas não possuem capacidade mínima de terminar uma oração, ou de construir uma coesão em seu texto.
Experimentemos deixar um livro desse “célebre” autor ser publicado sem revisão para ver os resultados. Sem conteúdo e sem qualidade textual, o que ele poderia oferecer?
Nada pessoalmente contra…
Gente, estou adorando esta discussão!!!
Dei ótimas risadas.É muito enriquecedora e democrática, excelente. É um estímulo para mim, do curso de Especialização em Gramática, Produção e Revisão de Textos, do Ceell. Seremos revisores,sim, porque amamos, pelo menos creio ser o caso do criador do curso e excelente revisor – Alexandre Pilati. Uma coisa nem sempre exclui a outra. Por que não sermos também escritores? E aí, sim, vamos precisar de um colega para fazer nossa revisão, é o ciclo…
PS: Desculpem, mas ainda não automatazei o Acordo. Acho que ainda não acordei…rsrs
Boa discussão!
Estava eu a procura de algo a respeito de revisores, que caminhos percorreram até que pudessem canetar uma obra e me deparei com o debate. Pessoalmente, creio de alma limpa que há sempre bons e maus profissionais, sejam eles revisores ou escritores. Isso não é novidade.
A despeito do fato deles se complementarem – o que não se nega – tomar base pela excessão parece loucura: Saramago hoje escreve como quer e virou estilo. Qualquer outro que tentar, não será bem visto. E nada como uma boa revisão para ajudar.
Mas acima de tudo, nada como uma ótima idéia e o dom de ser bem contada por um escritor singular.
Abraço a todos!
Muito prazer, sr. Boppë(ou será sra?, não consegui descobrir ainda se você é homem ou mulher). Sou um dos autores do Gilgamesh e, naturalmente respeito o fato de você não ter gostado da nossa forma de narrar. Cada qual com seu gosto. Agora, no que tange a erros gramaticais, acho que deveria ser mais tolerante com eles, já que você próprio (a) comete um ao proclamar o erro inexistente na palavra “herói”, que continua com acento, como advertiu a Monica. Viu como são as coisas? CORRIGIU, ERRANDO. Realmente, seu site está muito mal-humorado(Com ou sem hífen? Francamente, Boppë amigo(a),estou me lixando pra isso.)
Prezados amantes da língua,
A realidade tem mostrado a autores, revisores, artistas, artesãos, pedreiros e jogadores de futebol profissionais (desculpem-me os não-citados) que o tempo ruge cada vez mais alto nesta Indú$tria de Desejo$ Ilimitado$ (manter caixa alta e baixa).
Todos, ainda amadores ou perdidos amantes daquilo que fazem, sentem, no bolso ou no estômago, (deixar a locução entre vírgulas) a necessidade de matar leões “brincando de trabalhar” (aspas intencionais), já que não sobra tempo para nada mais sério.
Pressão das editoras, pressa dos autores, prisão nos escritórios, pilotos automáticos, emoção express, mestres-de-muitas-obras… e casas caindo, gols perdidos, técnicos despedidos, “muitos erros passando” (sic), vírgulas apartando nobres sujeitos de seus virtuosos predicados e, fatalmente, egos feridos. A torcida não perdoa!
Estando ou sendo revisor, saiba-se que ninguém, lendo por dez horas ou mais, rotineiramente, desvê erros ou desvenda incoerências, desanota desvios ou inventa incongruências, sejam lá que erratas forem, a bel-prazer ou púrpura (bold) maldade com o autor.
Somos uma legião de bem-intencionados! Mas há quem diga que de bem-intencionados o “mercado” está cheio!
Só para entrar no clima dessa deliciosa discussão : desvê é o quê ?
verbo desver?
Não entendi. E gostaria!
Desculpem-me,estou me referindo ao texto anterior…Flavio Mota??
Caro Wanderly,
Está implícito no vocativo usado no desabafo, à guisa de comentário, que fiz: essa “deliciosa discussão” tem como público-alvo os prezados amantes da língua. Sem a mínima pretensão de desafiar a capacidade de compreensão pelos leitores incautos, desver, naquele contexto, é deixar de marcar, intencionalmente, algum desvio da norma padrão. É um verbo tão inventado quanto “desanotar”, que, explique-se em tempo, quer dizer “deixar de pôr o visto”, com autolicença poética e autoria registrada pelo dr. Word. Digamos que, se eu não quisesse mais usar esse afrontoso verbo _ cunhado nalgum recôndito baú de influências neológicas, para sugerir possível falta de atenção por parte de algum revisor cansado _, eu o descriaria, desinventá-lo-ia, como queiram (mas “sem aspas”, como quero). Pano para novas mangas. Lenha para acalorar o clima. Entendo que quem se atreve a escritor pode muito bem cooperar com o leitor comum, que tem dificuldade de construir sentidos. Certamente, quem lê só “até onde a vista alcança” quedaria contente, como o censor que se vangloria de descuidar de descortinar horizontes novos. Essa “coisa” de querer falar difícil, hermetismos fora de propósito… Revisor invejoso que sou. Aliás, um grande e cabotino escrevinhador! Fica o dito pelo desvisto (ou desanotado.
Flavio Mota, Ran kei, ou melhor, assino embaixo…
Dizer que o revisor não gosta de ser revisor e que ele queria mesmo era ser escritor é, além de arrogância, falta de conhecimento dos procedimentos envolvidos na publicação de qualquer texto.
Claro que a visão (estereotipada) da figura do revisor não é nem um pouco simpática: sujeito obsessivo em modificar o trabalho dos autores, por mais criativo que seja, num texto padronizado pelas regras dos dicionários e das gramáticas.
Esse retrato, que pinta o revisor com as tintas que um autor geralmente escolhe, não corresponde à realidade – ou pelo menos não deveria. O verdadeiro revisor não é aquele que sabe de cor as regras gramaticais; ele não é um técnico, que impõe locuções gramaticalmente corretas e substitui maquinalmente neologismos por palavras consagradas pelo dicionário. A atividade do revisor vai muito além de um mero jogo de palavras e se prende ao conteúdo do texto: é a coerência do pensamento e a eficácia da informação que guiam o trabalho do revisor profissional.
Quer dizer, aqui vale fazer uma distinção entre dois tipos de texto, que possuem funções diferentes e, portanto, demandam atitudes diferentes por parte do revisor: o texto como obra de arte e o texto como ferramenta de comunicação. O texto informativo é mais aberto às intervenções do revisor e, uma vez que a eficácia da informação é o objetivo principal, todos os procedimentos devem ser tomados para suprir uma possível deficiência estilística do autor em comunicar de forma profícua.
No texto que possui uma função poética, o trabalho do revisor é mais sutil deve ser feito com mais cuidado pois as palavras potencializam significados e qualquer mal-interpretação por parte do revisor pode resultar na deturpação das intenções do autor.
É uma pena que o livro de Rubem Alves não tenha encontrado um bom revisor pelo caminho – um que adivinhasse as suas intenções ao intercalar “história” e “estória” – mas isso não justifica que a importância do revisor seja diminuída. Há bons e maus revisores. Há bons maus autores.
O que deve ser evitada é a rixa e a intolerância que há entre revisor e autor; rixa esta que não é de hoje, mas que carece de sentido, uma vez que quem perde com isso é o leitor. Infelizmente, devido à atual organização do mercado editorial, um diálogo entre os dois não é uma atividade recorrente. Porém, a partir do momento que revisor e autor trabalharem juntos e aceitarem humildemente as intervenções um do outro, o refinamento do texto só tende a aumentar e é este o objetivo de ambos: fornecer textos de qualidade.