Reforma Ortográfica

Monday, January 5, 2009
By Fernando de Freitas Leitão Torres

Alguém, não lembro quem, se referiu (não acidentalmente) à Reforma Ortográfica como Ortopédica. Explico. O esforço que alguém acostumado a escrever deve fazer para se adaptar à reforma ortográfica, é a mesma que temos que fazer quando precisamos reestruturar nosso corpo a uma nova necessidade. Quem escreve agora é um acidentado reaprendendo a andar.

Na Folha de S. Paulo foi publicada uma reportagem que consistia em entrevista com escritores. Rubens Alves foi categórico: vai continuar escrevendo do mesmo jeito e que gramáticos não deveriam fazer alterações na língua. Ondjaki disse praticamente o mesmo.

Concordo com eles. Sou partidário de Rubens Alves na questão “estórica” (a saber “história” e “estória” são coisas muito diversas, e a exclusão da segunda foi um crime), até por respeito a Guimarães Rosa.

Acho também que o argumento da grafia única é fraco. O Inglês e o Espanhol não têm grafia única. Por sinal grafo, por pura pretensão, a palavra “Theatre” com esse “r” no meio. 

E existe uns que reclamaram que todos os livros de suas bibliotecas são agora obsoletos. Loucos. Eu tenho edições belíssimas do Graciliano Ramos e de Mário de Andrade anteriores às reformas ortográficas anteriores. Que prazer ler esses documentos históricos de nossa língua.  Vamos continuar entendendo os livros grafados com a ortografia de até 2008, como entendiamos sem dificuldades a grafia (deixo bem claro isso) de Saramago. Mas afinal o que é importante? O conteúdo ou a grafia?

A nova ortografia é como as novas escolas públicas que são construidas sistematicamente pelos governantes. São gastos injustificados na forma, que deixam de lado o conteúdo. Onde está o investimento nos professores? Bem, não vou entrar nesse assunto.

Não serei um opositor da nova ortografia. Por sinal nunca usei a trema. Mas também não levanto essa bandeira. É inútil pois a língua é viva, formada nas ruas, nas casas, no seu uso e desuso, e, impreterivelmente, pelos escritores.

Escreva, com ou sem trema, suas estórias e histórias e seja feliz.

3 Responses to “Reforma Ortográfica”

  1. lembrei de Chico Science na introdução do seu primeiro disco:

    “cadê as notas que estavam aqui? Não preciso delas, basta deixar tudo soando bem aos ouvidos!”

    quem sabe seja, nesse momento, uma boa…. rsrsrsrsrsrsrs

    #49
  2. Talvez por ter estudado em uma escola denominada Anhangüera, o trema foi sempre parte de minha vida, desde a infância. Quanto aos acentos, como escrevi no outro post, A reforma ortográfica do sarnento, praticamente todas as línguas que usam o alfabeto latino usam sinais para complementar as letras. Mesmo o inglês, quando as importa, mantém o acento de fiancé, o cedilha de façade, (se bem escritos). Ou então partimos para os ideogramas, que nada têm em comum com a pronúncia. Ideogramas e alfabetos são conceitos diversos de registrar as idéias. A taquigrafia/ estenografia com que se brinca na internet é ótima para escrever, mas difícil para a leitura. Isso já sabiam as tias-avós, quando secretariavam no início do século passado.

    #52
  3. Tinha esquecido de colocar o link do comentário sobre a reforma ortográfica do sarnento

    http://boppe.wordpress.com/wp-admin/post.php?action=edit&post=565

    abr

    #53

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