O Mito da Inspiração e outros Clichês Acerca da Produção de Literatura

Tuesday, December 9, 2008
By Fernando de Freitas Leitão Torres

O escritor é uma figura romântica. Sobre ele se criou uma figura mítica. Este artista, assim como os de outra áreas (pintores, escultores, músicos, dançarinos, entre tantos outros) têm em torno de sí uma aura divinificante. as pessoas referem-se a eles como seres dotados de uma iluminação artística que lhes foi dada por Deus chamada inspiração.

A inspiração não existe. Este simpático senhor ao lado é Manuel Bandeira, ele foi um dos opositores do mito da inspiração. No lugar da inspiração, Bandeira criou o conseito de Alumbramento, que é uma percepção que pode tomar forma artística. Por exemplo, o ritmo de uma poesia podia vir de uma caminhada, seus passos dariam ritmo a um pensamento, que ordenado no papel se tornava poesia.

O alumbramento de Bandeira se diferencia da Inspiração por que somente a percepção treinada pode encontrar o alumbramento. Nada de divino nisso.

Existe, por óbvio, quem rejeite a inspiração e que não tomou conhecimento do alumbramento. Costumam dizer que arte é transpiração, ou seja, trabalho. Não é possivel concordar com isso, escrever não é um ato mecânico, requer percepção e reflexão afiadas, pois tanto a  realidade quanto a imaginação não podem ser retratadas em sua integralidade. Muito menos a técnica pode ser aplicada da mesma forma indefinidamente ou aleatoriamente para a criação. A reprodutibilidade técnica só é possível após a criação.

O mito da inspiração, ainda, costuma ser acompanhado do mito da necessidade de escrever. Dizem por aí, que o escritor junta palavras por que não pode não escrever, por que não aguenta, como se fosse um drogadido por palavras e idéias surgidas da inspiração. Escrever exige disciplina e controle, não escrever é, na maioria das vezes, o ato mais importante da produção de um escritor. A reflexão é uma arma precisa, a releitura, revisão, tudo isso é não escrever. O escritor precisa não escrever mais do que tudo.

3 Responses to “O Mito da Inspiração e outros Clichês Acerca da Produção de Literatura”

  1. Na maioria das vezes sou acometida por uma pressa doida em dizer e registrar as coisas, em criar histórias, que acabo esquecendo da importância de não escrever.

    Falta tempo pro flerte, e dedicação nas preliminares. Quero o gozo de imediato.

    Ótima reflexão, Fernando!

    #30
  2. Bandeira é magnífico.

    Muito apreço tenho por essas pessoas estudiosas, teoricos, etc. Também acredito no alumbramento.

    Certa vez um caro professor disse que as pessoas deveriam mostrar, difundir, não tudo o que querem colocam pra fora, mas sim aquilo que realmente é importante para aquele que o recebe.

    Isso me fez repensar muitas coisas…

    #31
  3. Olá Fernando

    Na verdade eu recebi seu texto por e-mail e não tinha conhecimento que estava em um blog. Mas peço desculpas; já está devidamente corrigido.
    Bem , na verdade escrevo faz dez anos. Editei em 2006 um livro de poemas e estou preparando um para esse ano.

    Saudações
    Beatriz
    CARTAS AO AVESSO

    #65

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