Intermitências

Monday, December 8, 2008
By Fernando de Freitas Leitão Torres

José Saramago acabou de escrever um livro. Escreveu o livro depois (ou durante) de enfrentar a eminência da morte. O Ilustre morador de Lanzarote, deixou a ilha onde mora para divulgar no Brasil seu livro recém escrito. E entrevista após entrevista ele teve de responder acerca da possibilidade de um próximo livro.

Aqui em terras tupiniquins e piratiningas, bem como do outro lado do oceano, Cristovão Tezza abocanhou tudo quanto é prêmio literário. Foi de tudo, Portugal Telecom, Jabuti, Prêmio São Paulo, Clube do Livro das Terceira Idade do Brooklin, Prêmio do Gremio Estudantil do Colégio XYZ e muitos outros. Aliás todos eles merecidos, “Filho Eterno” é o melhor livro escrito nos últimos anos por aqui. Só que agora ele não para de responder a mesma pergunta: quando virá e sobre o que será o próximo livro.

Acho incrivelmente estranho essa insistência. Como se um livro publicado jamais fosse o suficiente. Esses livros merecem atenção, serem lidos, criticados, estudados, discutidos, reconstruidos à exaustão. Os livros não estão nem gastos ainda e já foram considerado passado. A insatisfação eterna.

Me parece que eles tem uma obrigação, importa por esta insatisfação alheia, de sempre produzir o próximo. Escritores assim devem ser festejados pela sua obra e não pressionados à produziram como máquinas. a insatisfação da arte na era da reprodutibilidade técnica.

Grandes escritores foram intermitentes. Produziram lentamente. Maturando livros e ideias. Milton Hatoum escreveu quatro livros. Três deles já são consideradas obras primas da literatura nacional. O primeiro foi publicado em 1989, e anos se passaram até a publicação de outros. Até onde me parece ele soube resistir bem às pressões.

Muitas vezes, quando um escritor escreve um livro de contos, lhe pedem um romance, e logo. “Você precisa escrever um romance, é um dever que você tem consigo!”, mentira! O escritor tem um dever com a própria obra e com a qualidade dela. “E rápido! O tempo está passando!”. Uma mentira camuflada. O tempo passa para todos, mas a angústia sobre essa passagem é de cada um. Aliás, o tempo passar, faz da produção o mesmo que com o vinho ou o uísque. As palavras ganham corpo, maturidade. O texto toma aquele gosto de madeira-de-lei.

Outro dia mesmo recebi um repreensão, “Você não atualiza seu blog!”. Sem mesmo me perguntarem o que anod fazendo, se vou bem de saúde, ou mesmo, se tenho ago a dizer. Pois não devemos desperdiçar letras, palavras e frases quando não temos nada a dizer. A menos, claro quando não ter o que dizer for algo a dizer. Se não ter o que dizer for uma declaração clara e simples, com um objetivo, escreverei sem ter nada a dizer. Por óbvio.

A intermitência incomoda por que somos condicionados àquele estado de recepção de informações constante. Estado este que evita que nos aprofundemos em qualquer coisa, pois nunca atingimos o relaxamento necessário para absorver completamente uma informação. Temos, invariavelmente que assistir uma centena de programas semanais, ver jogos de futebol, ir ao cinema e ver aquele filme cult, ver o filme blockbuster, conhecer teatro, ter lido o último livro de cada um dos autores proeminentes da literatura brasileira, sem deixar de fora nenhum dos novos talentos afegães ou os atigos talentos franceses (bons tempos aqueles dos velhos talento franceses), tomar o café gourmet, comer melhor coxinha da cidade, ter uma vida social agitada, uma vivênvia amorosa intensa, conhecer todas as paradisícas praias do nordeste, a Europa (agora com seu leste aberto), Chicago e Disneylândia, e ainda plantar uma àrvore, ter um filho e escrever um livro

A vida é um sopro, diria o velho arquiteto. Se fizermos tudo que nos pedem, não faremos nada direito e o sopro se esvaira sozinho pelo ar. Se nos concentrarmos, se encontrarmos a vibração correta, talvez faremos dela uma belíssima nota de trompete.

Eu escrevo por aqui quando posso. Eu volto, e até lá, seja amanhã ou outro dia, seja feliz.

2 Responses to “Intermitências”

  1. Rafael

    Oi Fernando, te vi linkado no Eric Novello e passei por aqui. Eu sou uma vítima, mais ou menos consciente, do afã eterno das últimas novidades. Tanta coisa na vida e a gente vai se angustiar por isto… Ah, tô começando um blog literário. Quando puder / quiser dá uma olhada lá. Abção

    http://escritosesparsosbr.blogspot.com/

    #28
  2. Rafael, cuidado para não se vitimizar. Seja algoz da angústia e cuidado com essa suposta nova contemporaneidade. Escreva não por necessidade, mas por resistência.

    Dezembro é um mês perigoso, os projetos iniciados nele não costumam sobrevier às promessas de ano novo, que serão. por sua vez, abandonadas em janeiro.

    Espero que tenha sucesso com seu blog. Insista!

    #29

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