28/08/2008

- -
Juliana Araújo

Nanquin sobre canson

27/08/2008

A VIDA É UMA GRANDE BRINCADEIRA
Gabriela Souza Gomes

Seis da tarde. O moleque cata a bola do canto da sala e com ela debaixo do braço corre para o campinho. Dono da bola sempre começa escolhendo. Ganha o direito de escalar o time inteiro:

- Tu pra cá… Tu… Ele e cês dois.

Até abrir o placar o guri vai ter suado a camisa, trombado em três ou quatro, chutado a grama e afoito em não deixar o time tomar gol, cavado algumas faltas. O placar de uma pelada nem sempre é justo. Se a própria vida não é, por que um mero joguinho seria?

Casa de boneca, comecinho de tarde. A menina coloca suas Barbies a brincar. Ensaia diálogos entre as bonecas, pergunta do tempo, do emprego e dos filhos. Troca as roupinhas e volta a ficar indecisa: muda sapato, brinco, bolsa, colar – até se enjoar. Essa história de final sempre igual, cansa. Desfaz a produção das dolls e com um sorriso no rosto, escolhe uma para dormir nua na cama com o Ken. Ela nem sabe, mas é quase isso que a espera na vida adulta.

Década de oitenta. Jogo Vai-e-vem.

Regras: Dois jogadores seguram duas argolas em extremidades opostas de uma mesma corda. Com força e precisão, devem abrir os braços para lançá-la deslizando até o adversário. Pra lá e pra cá. Vai-e-vem, vai e volta. Às vezes, acontece de faltar fôlego e a bola parar no meio do caminho. Não vai, nem vem. Outras, a corda enreda igual rede de vôlei guardada às pressas.

Sobe e desce, pula-pula. Acerta helicópteros e navios, coloca gasolina, fica de olho no score. Envido. Real Envido. Flor. Embaralha aí pra gente. Loiro, narigudo, sem bigode e com chapéu. Compro terreno em Ipanema, vendo Copacabana. Pogobol. River Raid. Truco. Cara a Cara. Jogo da Vida. Tua vez de girar a roleta. Chega. Tá tarde e é preciso dormir.

Eu desconfio que no final a vida seja uma grande brincadeira.

26/08/2008

- -
Ágatha Barbosa

Poupouri de Sal

Me aproveito desse conhaque
que bota a gente comovido como o diabo.
Pra lhe contar que nesta rua torta,
À luz da lua morta
Caminharei para tua porta
E chutarei as pedras e comerei as terras
Até que você brilhe, estrela da minha manhã
Ferindo minhas retinas fatigadas.

(Drummond, Cassiano, Bandeira e Ágatha)

25/08/2008

BANQUETE
Flávia Brito

Serviu-se de uma modesta porção de um qualquer-coisa-vegetal da qual mordiscou não mais que dois tomates-cereja, apenas para não parecer tão enfastiada e para confraternizar com os outros convidados - afinal de contas era o casamento da melhor amiga, fiel companheira de aventuras e dietas, e ela merecia aquela incontestável prova de consideração e renúncia. Por pouco não sucumbiu à tentação de cair de boca na musse de chocolate; foi salva pela sua habilidade com números, que lhe permitiu converter, em uma fração de segundos, o valor calórico da guloseima em quilogramas desconfortavelmente aboletados na cintura e nos quadris. Horripilante, mesmo enquanto hipótese. Afastou de si o tal cálice com o coração partido, é verdade, porém com o corpinho manequim 36 devidamente salvaguardado. Voltou para casa exausta, mas gloriosa. A noite fora sua, mais até do que da noiva, a amiga que lhe perdoasse o inegável e inevitável roubo das atenções.

Descalçou as sandálias de saltos altíssimos, espreguiçou os dedos dos pés, endireitou a coluna e atravessou a escuridão rumo à cozinha - relembrando com orgulho a deliciosa sensação de ter cada pedaço do seu corpo devorado pelos olhares masculinos, mordido, reverenciado quase religiosamente por aquela coletiva, íntima e testosterônica salivação - acendeu as luzes: os vestígios do lanchinho pré-casamento, engolido às pressas para evitar uma possível orgia gastronômica durante a festa, ainda estavam espalhados sobre a mesa. Dois pacotes de macarrão instantâneo, três fatias de pizza de calabresa com muito queijo, quatro bombons Sonho de Valsa, um Mac Tasty com coca-cola e um pote de Nutella. Tudo devidamente vomitado, óbvio, afinal era preciso caber sem sobras dentro do vestido tomara-que-caia. Arrumaria a bagunça depois. Precisava mesmo era amansar a fome despertada pelos tomates-cereja, maldita hora em que abrira mão da espartana disciplina alimentar para engolir aquilo.

Nem teria coragem de encarar a balança depois mas havia a fome, felicidade dava fome, vitória dava fome, tomates-cereja davam muita, muita fome. Além do mais, sempre havia o providencial expediente das dedadas na garganta para dar aquela consertadinha nos eventuais excessos. Deu de ombros e sorriu, feliz. Sentou-se no chão da cozinha, cruzou as pernas como uma criança e, triunfante, abriu a bolsa abarrotada de bem-casados (surrupiados com o máximo da elegância e discrição) e saboreou-os um a um, lambendo os dedos, em comemoração ao sucesso da sua aparição, repetindo para si mesma - enquanto se encaminhava ao banheiro já com o dedo em riste para concluir o ritual da noite - que ser diva, realmente, era coisa para poucas.

24/08/2008

SILHUETAS
Samara Assi

23/08/2008

A NOVA IDADE
Gustavo Amaral

Onze para as duas da manhã. Quinta para sexta feira. Tempo fechado, com uma esparsa garoa a borrifar as calçadas de São Paulo. As luzes só amortizam o pesado clima de solidão, isolamento, calma, deserto. Viadutos completamente vazios, esquinas isoladas. Um som, de imediato muito baixo e que vai aumentando conforme a aproximação, mostra que ainda há gente acordada apesar da madrugada. O bar, uma construção simples porém charmosa, é pequeno e suficiente para abrigar a todos os que o freqüentam. É a neoboêmia paulistana.

Em outras décadas, seria quase certo associar a vida pulsante nas madrugadas a jovens de, no máximo, vinte e quatro, vinte e cinco anos. O que se vê aqui são senhores e senhoras com, no mínimo, cinqüenta, todos reunidos para escutar boas rodas de chorinho e samba. Parecem se esquecer de que amanhã será sexta e que muitos deverão acordar às sete em ponto. Quase todos parecem esquecer que existe problema e estão ali quase que para se dedicar um agradável momento.

Apesar de limitada a faixa etária, eles apresentam muitas diferenças. A vida de cada um é mais interessante que a do outro. E, como sempre, mesa de boteco é sempre um grande lugar para se conhecer sobre a vida. Talvez, a maior escola de todas.

Esta senhora bem próxima do balcão, sessenta e quatro anos, advogada, sem casamentos, filhos ou qualquer ligação mais séria. Mesmo que em boa parte das vezes esteja sozinha na mesa, bebendo calada, está sempre ali pela certeza de fazer parte, mesmo que muda, daquele espetáculo.

Aquele senhor sentado ao lado do corrimão da escada (que dá acesso a um mezanino). Cinqüenta e oito anos, nenhum casamento, dois filhos perdidos por aí, funcionário público que nas suas horas úteis é poeta. E vive sua poesia em plenitude naquele bar.

Aquela mulher, na terceira mesa da porta para dentro. Cinqüenta e sete anos, três casamentos, dois filhos. Psiquiatra formada, uma vida construída e, não por isso, deu por encerrada sua procura por um novo amor. Quer dizer, encontrar vírgula. Porque já se tem um eleito e ele está ali. Ali, na quarta mesa, do lado oposto.

Sessenta e cinco anos, empresário de médio porte, um casamento e quatro filhos. Em suas noites de boêmia, arrisca a atividade de cantor. Mas hoje ele não cantará. Sua rivalidade com o cidadão que está ao microfone o impede de qualquer atitude. O senhor de voz rouca e que desfia Noel Rosa, Paulinho da Viola e tantos outros já está próximo dos sessenta. Orgulhoso de ter sido considerado um “canário” em sua juventude, amargurado por não ter realizado uma grande carreira na música, infeliz por não ter conseguido construir a vida idealizada, afoga todas suas mágoas e rancores naquele microfone.

E todos cantam juntos, e todos dançam juntos, e todos comemoram junto. Porque é aquela leveza de conversa de boteco que eles carregam para seu cotidiano. E, ao contrário dos que acreditam que a felicidade é um estado eterno, eles cultivam estes momentos com raríssima sabedoria na certeza de recriarem em breve outro instante de êxtase e euforia em suas vidas. Quem sabe na próxima madrugada?…

22/08/2008

CAFEEIRO
Fernanda Fiamoncini

coffee

Próximo »
No ar desde 01/03/2007